Internacional

As fake news são realmente perigosas ou isso também é fake?

As fake news são informações falsas ou distorcidas espalhadas pela internet, notadamente nas redes sociais, cuja propagação busca basicamente a desinformação sobre determinado assunto com objetivo de obter alguma vantagem, seja ela política ou econômica. Ao contrário do que o termo sugere, nem sempre são originadas de informação fantasiosa: muitas vezes a apuração dos fatos acontece, porém eles são apresentados de maneira maliciosa, na tentativa de alcançar finalidade diversa.

De fato, notícias falsas sempre existiram e ajudam a entender como o mundo se organizou – e guerreou – com o passar dos séculos. A grande mudança no século XXI, no entanto, foi a propulsão dada pela internet a essas informações, amplificando o alcance e ocasionando uma guerra informativa muitas vezes difícil de combater, colocando de um lado os meios tradicionais de comunicação, que tentam manter a influência, e do outro sites e blogs de notícias com forte viés ideológico.

As fake news são utilizadas, não esporadicamente, para promover a discriminação de grupos e o recrudescimento de opiniões. A polarização de ideias encontra nas fake news terreno fértil para espalhar informações que endossam argumentos enviesados e dão uma face oficiosa a fatos desprovidos de confirmação ou veracidade. Não raro, o fato verdadeiro demora para chegar e, quando chega, normalmente não tem o mesmo alcance.

Em 2017, uma equipe da BBC Reality Check, criada para identificar e reportar notícias falsas, confirmou como uma série de imagens de conflitos ocorridos há décadas, como a guerra de Ruanda, foram utilizadas para acusar os rohingyas – povo muçulmano habitante de Mianmar que em 2018 a ONU afirmou ter sido alvo de genocídio – de serem terroristas violentos. A divulgação das fotos contribuiu para o aumento da violência, levando mais de 700 mil rohingyas a fugirem para Bangladesh, além de resultar em cerca de 10 mil mortos, segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras. 

No Brasil, a entrada de venezuelanos que fogem de crise econômica, política e social que devastou a economia de seu país, também foi alvo das fake news. Em agosto de 2018, circulou pelas redes sociais mensagem de que os venezuelanos estariam recebendo títulos de eleitor para votar nas eleições brasileiras de outubro de 2018, fato não permitido pela lei e negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A falsa informação, todavia, contribuiu para reforçar a imagem negativa dos imigrantes e fomentar a xenofobia. Dias antes, mais de mil já haviam sido expulsos por moradores de Pacaraíma (RR) após quatro venezuelanos supostamente terem agredido e assaltado um comerciante local.

As notícias falsas estão notadamente ligadas a discursos de ódio, podendo ser caraterizadas juridicamente como um abuso do direito de liberdade de expressão. Um indivíduo que utiliza as fake news para inferiorizar e discriminar outrem baseado em suas características – sexo, etnia, orientação sexual, religião, entre outras – muitas vezes com a incitação à violência contra as minorias, está ferindo a dignidade da pessoa humana, um dos fundamentos principais da Constituição Federal.

O perigo da desinformação na atualidade levou o historiador britânico Ian Mortimer a catalogar, quantificar e estudar o impacto das principais mudanças dos últimos mil anos de história ocidental e concluiu que o perigo das notícias falsas e mentiras é maior hoje do que era no passado, principalmente graças aos avanços da comunicação.

Por outro lado, a mesma internet que ajuda a espalhar informações incorretas também ajuda a esclarecê-las. Têm crescido também o número de iniciativas de checagem de informações por parte dos meios tradicionais de comunicação e de ONGs criadas com essa finalidade. As grandes empresas de internet também têm empreendido esforços no combate às notícias falsas. Em 2017, o Facebook e o Google anunciaram importantes medidas no combate à disseminação de informações carentes de confirmação.  

REFERÊNCIAS 

AVENDAÑO, Tom C. ‘Fake News’: a guerra informativa que já contamina as eleições no Brasil. El  Páis, São Paulo, 11 fev. 2018. Disponível em <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/09/politica/1518209427_170599.html>. Acesso em 5 set. 2017. 

COSTA, Camilla. ‘Perigo de notícias falsas e mentiras é maior hoje do que jamais foi’, diz historiador britânico. BBC, São Paulo, 11 ago. 2018. Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/geral-45090376>. Acesso em 5 set. 2018. 

__________. Três casos de fake news que geraram guerras e conflitos ao redor do mundo. BBC Brasil, 25 abr. 2018. Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/geral-43895609>. Acesso em 5 set. 2018. 

SCHULTZ, Adriane. É #FAKE que venezuelanos estão recebendo título de eleitor para votar em outubro. G1, São Paulo, 28 ago. 2018. Disponível em <https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2018/08/28/e-fake-que-venezuelanos-estao-recebendo-titulo-de-eleitor-para-votar-em-outubro.ghtml>. Acesso em 5 set. 2018. 

DELMAZO, Caroline; VALENTE, Jonas C.L.. Fake news nas redes sociais online: propagação e reações à desinformação em busca de cliques. Media & Jornalismo, Lisboa, v. 18, n. 32, p. 155-169, abr 2018. Disponível em <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-54622018000100012&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 05 set. 2018.  

SILVA, Gustavo A. A liberdade de expressão e o discurso de ódio. Jus Brasil. Disponível em <https://gus91sp.jusbrasil.com.br/artigos/152277318/a-liberdade-de-expressao-e-o-discurso-de-odio>. Acesso em 07 set. 2018. 

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