7 em cada 10 vítimas de estupro em MS são meninas e adolescentes
Mato Grosso do Sul registra um dos cenários mais preocupantes do país em relação à violência sexual. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgados em julho e referentes ao ano de 2025, mostram que 75,5% das vítimas de estupro no estado são meninas e adolescentes de até 17 anos — o equivalente a sete em cada dez casos registrados.
O levantamento também aponta que Mato Grosso do Sul possui a quinta maior taxa de estupro do Brasil, sendo o único estado fora da Amazônia Legal entre os cinco primeiros colocados no ranking.
Casos seguem elevados em 2026
De acordo com o Monitor da Violência, do Governo do Estado, já foram registrados 1.126 casos de violência sexual em 2026, mantendo a predominância de vítimas mulheres e meninas.
No primeiro semestre deste ano, foram contabilizadas 996 vítimas, o menor número para o período desde 2016, quando houve 1.053 registros. Apesar da redução, especialistas alertam que a queda nos registros não significa, necessariamente, diminuição da violência.
Segundo o Monitor da Violência contra a Mulher, da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS), Dourados lidera o número de ocorrências no estado. A maior parte das vítimas tem entre 0 e 11 anos de idade.
Características em comum entre os estados com maiores taxas
O Anuário destaca que os estados com os maiores índices de estupro apresentam fatores semelhantes. No caso de Mato Grosso do Sul, estão presentes:
– localização em área de fronteira com Paraguai e Bolívia;
– grande extensão territorial, incluindo 12 municípios na faixa de fronteira;
– significativa população indígena, com 139 povos e comunidades declarados pelo IBGE;
– expansão da agropecuária;
– atuação de organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
O estudo ressalta, porém, que esses fatores representam características comuns observadas nos estados com maiores taxas e não estabelecem relação direta de causa e efeito.
Cenário nacional
Em todo o Brasil foram registrados 84.388 casos de estupro em 2025, o equivalente a 39,5 ocorrências para cada 100 mil habitantes. Foi a primeira redução nos registros desde a pandemia.
O Anuário, entretanto, faz um alerta: a diminuição dos casos registrados não permite concluir que houve redução da violência sexual, tampouco pode ser atribuída apenas à subnotificação.
O estupro de vulnerável continua sendo a modalidade mais frequente. Em 2025 foram registrados:
– 64.990 casos de estupro de vulnerável;
– 19.398 casos de estupro.
As mulheres representam 93,3% das vítimas de estupro no país. Nos casos de estupro de vulnerável, meninas de até 14 anos correspondem a 85,6% das vítimas.
Os dados mostram ainda que:
– entre as meninas, os registros se concentram entre 10 e 14 anos, com pico aos 13 anos;
– entre os meninos, a maior incidência ocorre por volta dos cinco anos, voltando a crescer aos 13 anos.
Violência contra a mulher
Além da violência sexual, Mato Grosso do Sul apresentou indicadores preocupantes em outras formas de violência contra a mulher.
Os registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica cresceram 19,4%, segundo maior aumento do país, atrás apenas do Acre.
Em contrapartida, o estado foi um dos dois únicos do Brasil a registrar queda nas ocorrências de perseguição (stalking), com redução de 7,8%.
Também foi registrada a maior redução nacional nos casos de violência psicológica, que caíram 44,5% em comparação com o ano anterior.
Outro dado preocupante é o índice de maus-tratos, no qual Mato Grosso do Sul lidera o ranking brasileiro, com 206,5 registros por 100 mil habitantes, quase três vezes acima da média nacional, de 77,4.
Em todo o país, os registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica cresceram 2,6%, alcançando taxa de 261,7 ocorrências por 100 mil mulheres, o equivalente a uma agressão registrada a cada dois minutos.
Feminicídios continuam em alta
Segundo o Atlas da Violência, Mato Grosso do Sul registrou aumento de 18,75% nos assassinatos de mulheres entre 2023 e 2024. O número de vítimas passou de 48 para 57.
Dados da Sejusp-MS também mostram crescimento nos feminicídios consumados, que passaram de 30 casos em 2023 para 35 em 2024.
Em 2026, até o dia 6 de agosto, 21 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado. Na maioria dos casos, os crimes foram praticados por ex-companheiros ou companheiros que não aceitavam o fim do relacionamento.
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