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[Artigo] Economia, o próximo desafio – Fausto Matto Grosso

O maior problema que enfrentamos hoje, sem dúvida, é a epidemia do Covid 19. Afinal são milhares de vidas perdidas, de pessoas sequeladas e de famílias em luto. Nesse momento, não cabe uma disputa entre saúde e economia. Não existe economia sem vida.

Atualmente ainda existem dúvidas quanto às perspectivas da crise sanitária. Serão descobertas vacinas? Em que prazo? Haverá ou não uma segunda onda? Haverá avanços quanto ao isolamento social? Essas indagações ainda não têm respostas conclusivas.  

Se as ações concretas do governo e da sociedade devem ter o sentido de proteger a vida, também é verdade que não se pode deixar de pensar sobre o que fazer com a economia depois da crise. Governo e Congresso devem avançar logo no debate sobre as novas formas de proteção às pessoas vulneráveis e novos estímulos à economia, para enfrentar 2021. 

Estamos herdando da pandemia uma economia em situação desesperadora, e nem se sabe se já chegamos ao fundo do poço. Alguns dizem que lá embaixo, ainda pode haver um alçapão. Isso poderá ser confirmado, por exemplo, se houver uma segunda onda da pandemia. O FMI já usou a expressão “o Grande Confinamento” para caracterizar a recessão causada pelo Covid-19. 

Nossa taxa de crescimento do PIB, que vinha negativa desde os dois últimos anos do governo Dilma (-3,5% e -3,3%), ganhou um pequeno alento com as reformas ensaiadas pelo governo Temer (dois anos de 1,1%). O primeiro ano de Bolsonaro manteve esse crescimento pífio de 1,1%, sinalizando uma anemia crônica da nossa economia. A situação se agravou ainda mais com a chegada da pandemia.

Relatório recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê para o Brasil uma grande recessão, com um crescimento negativo em 2020 de -7,4%, seguida de um avanço parcial de 4,2% em 2021, insuficiente para recuperar as perdas anteriores. A recuperação será lenta, e a crise terá efeitos de longa duração que afetarão de maneira desproporcional as pessoas mais vulneráveis, salienta o relatório.  Somente em 2022 teremos de volta o crescimento.

Para consolo dos brasileiros, nesse mesmo relatório é apontado que a crise do Covid atingirá todos os países do mundo, com a economia global sofrendo a maior contração em tempos de paz em um século, tendo uma dimensão maior do que a grande depressão dos anos 30 do século passado. A única exceção, entre todos os países, prevê-se para a China que deverá ter uma contração de 2,6% este ano, seguida de uma expansão de 6,8% em 2021. 

Economistas e analistas de mercado costumam recorrer ao alfabeto para explicar visualmente como preveem a recuperação de uma economia. Algumas das letras comumente usadas são V, W e U. Elas ajudam o público a visualizar o gráfico da taxa de crescimento do PIB ao longo do tempo. Vários cenários para a recuperação têm sido desenhados ultimamente.

O mais otimista deles é o representado pela letra V. Expressa a idéia de que após a queda, retornar-se-á rapidamente ao nível inicial. Entretanto, o cenário considerado mais provável é o U. Nesse, há uma entrada e uma saída da crise, mas a recuperação é difícil, mantendo-se, por um período mais longo, o baixo crescimento. Alguns consideram que a segunda perna do U poderá ser menor que a primeira, representando a retomada em um nível mais baixo de crescimento.

Há os que consideram também a possibilidade de um cenário de longa turbulência, com características de recessão, representado pela letra W. Esse seria consequência de sucessivas ondas do Covid ou de descontrole da condução das medidas sanitárias, como o isolamento social. Coloca-se ainda a possibilidade da letra L. Nesse cenário, depois de uma queda, a economia se manteria estável, mas em um ritmo muito menor, sem se recuperar.

Em um momento como esse, de alta indagação sobre o futuro, de mudanças de paradigmas, também de discussão sobre os limites do desenvolvimento, não seria oportuno discutir se é possível melhorar o Brasil sem apostar tudo só no crescimento?

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