‘Cena rara’, mãe de menino se surpreende ao ver homens debatendo violência contra mulher

12 de abril de 2026
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Era por volta das 9h quando, ao levar o filho para a terapia, Gisele Mendonza, 39, deparou-se com uma cena incomum. Em uma praça do bairro Pioneiros, um grupo de homens discutia como prevenir a violência contra a mulher. A situação a fez refletir sobre o problema social urgente.

Como mulher, o tema sempre esteve presente em seu cotidiano. Mas, desde que se tornou mãe de um menino, Gisele conta que passou a se questionar com frequência sobre como deverá educar o filho para que ele respeite as mulheres.

“Eu fiquei olhando, tentando entender se era uma oração, o que era.” A curiosidade a fez esperar o encontro terminar. Foi então que descobriu se tratar de um instituto voltado à conscientização masculina.

“Não é comum ver homens reunidos para esse tipo de discussão. Quando falei com ele, descobri que era um projeto para ensinar homens a lidar com a mulher. Achei interessante, ainda mais num momento em que está morrendo mulher a cada hora”, relata.

‘Fardo sempre é maior para mulheres’Mãe solo de uma criança atípica de quatro anos, ela afirma que a maternidade ampliou seu olhar sobre as desigualdades e as responsabilidades que recaem sobre as mulheres.

Por isso, ficou surpresa ao presenciar homens discutindo como exercer responsabilidade afetiva nas relações com mulheres.

“Tenho muito contato com mães atípicas, e o que vemos, com frequência, é que, quando a criança nasce com alguma condição, muitos homens vão embora. A maioria dessas mães acaba criando os filhos sozinha, mas ações como essas do grupo podem mudar essa realidade”, relata.

Instituto de conscientização masculina

A iniciativa mencionada por Gisele foi criada pelo caminhoneiro João Carlos Ferreira, de 45 anos, que decidiu atuar na prevenção da violência doméstica ao perceber que, na maioria dos casos, a resposta chega tarde demais. Sem apoio governamental ou financiamento público, ele começou de modo informal, auxiliando homens individualmente, até estruturar encontros coletivos.

“Eu ajudava um e outro, mas era tudo no boca a boca. Depois, decidi profissionalizar, criei um estatuto e passei a promover reuniões e palestras até fora da cidade”. Segundo ele, a proposta é agir antes que a violência aconteça.“Normalmente, a gente só vê o combate depois. Aí não adianta mais, ele já matou, já violentou. Nosso objetivo é não deixar o cara praticar o feminicídio, não deixar o ‘monstro’ vir à tona”, afirma.

Filho único, criado por mulheres, casado e pai de três filhas, João diz que a motivação também é pessoal. “Entendi que era meu dever proporcionar isso para outros homens também”. Assim surgiu o Instituto João Ferreira, batizado em homenagem ao avô, sua principal referência de masculinidade.

A iniciativa, contudo, não conta com a participação de mulheres nem profissionais de saúde. O trabalho é centrado na escuta e na reflexão sobre as origens dos comportamentos abusivos, em encontros que funcionam como rodas de conversa.

“Pergunto como foi a criação, como eram o pai, mãe e irmãos, porque o homem já vem com um turbilhão de problemas que não expõe”, explica. A partir desse diálogo, o grupo busca promover mudanças práticas no cotidiano. “Eu sempre falo para tratarem bem a esposa, não chegarem bêbados em casa, cuidarem da higiene, se cuidarem. Parece simples, mas muitos deixam isso de lado”, diz.

‘Já impedimos tragédias’

Além das rodas de conversa e palestras, o projeto também atua em situações de vulnerabilidade. João relata que, em alguns casos, a intervenção passa por garantir condições básicas.

“Às vezes, o homem está sem alimento. A gente o leva ao mercado, deixa escolher o que precisa e paga no final. É devolver dignidade”, afirma. Em outra situação, ele mobilizou parceiros para mobiliar a casa de um homem recém-separado. “Um ajudou com fogão, outro com geladeira. Quando vimos, a casa estava pronta de novo”.

Os relatos também incluem casos extremos. Em um deles, um homem chegou ao grupo com intenção de matar a esposa e tirar a própria vida. “A gente começou a conversar, foi na raiz do problema. Ele tinha perdido o emprego. Às vezes, a mulher está acostumada com uma vida, e, quando muda, começa o conflito. Ela reage, provoca, e o homem perde o controle até chegar à agressão. Conseguimos um trabalho para ele, e a situação mudou completamente”, conta.

Outro caso citado envolveu a reconciliação de um casal. “Após a separação, o homem estava muito nervoso e vingativo. Com diálogo e apoio, a situação foi revertida. Minha esposa foi conversar com a mulher e promovemos o reencontro. Hoje, estão juntos, criando os filhos”, relata.

‘Comportamento masculino é a raiz do problema’

Para João, a violência começa muito antes da agressão física. “Começa no ciúme possessivo, quando o homem acha que a mulher é propriedade dele. E não é. Ela tem direito de ir e vir, de trabalhar, de falar com quem quiser”, afirma.

Ele também diz que faz questão de confrontar os participantes com as consequências. “Eu pergunto: você está preparado para ir para a cadeia? Para ver seus filhos sendo criados por outros? Eu vou onde dói”.

Apesar de reconhecer a importância de políticas públicas voltadas às mulheres, ele acredita que a raiz do problema está no comportamento masculino. “Às vezes, o homem precisa de um abraço, de alguém que diga ‘estamos juntos’. As punições são importantes, mas o principal é evitar que a violência aconteça. No diálogo, a gente consegue mudar histórias”.

O projeto não tem vínculo religioso e atende qualquer pessoa que precise de ajuda. Segundo João, todo o trabalho é voluntário e mantido com apoio de empresários parceiros. “Eu não cobro nada. Não tenho vergonha de pedir ajuda quando alguém precisa”, afirma.

Atualmente, ele busca ampliar a atuação, com a criação de uma sede, canais de atendimento e maior presença nas redes sociais. “Eu nunca fiz isso para aparecer, mas vi que precisa expandir. É um projeto único no Brasil”, avalia.

Abordagens erradas podem levar à revitimização das mulheres

Segundo a assistente social, iniciativas de cunho religioso, por exemplo, podem reforçar a revitimização das mulheres ou contribuir para que permaneçam em situação de risco. Por isso, em qualquer situação de violência, é essencial trabalhar com dois princípios centrais, a potencialização do risco e a maximização da proteção das possíveis vítimas.

“É importante compreender que a participação de um homem em grupos reflexivos não significa, automaticamente, que ele esteja apto a retomar a convivência com a vítima ou a garantir sua proteção. Trata-se de um processo que exige acompanhamento contínuo, avaliação criteriosa e, sobretudo, a priorização da segurança das pessoas em situação de violência”, pontua.

Apesar dos desafios, Estela destaca que iniciativas em que homens conversam entre si são fundamentais. “Quando homens falam sobre suas fragilidades, reconhecem que podem chorar, que podem ser vulneráveis, isso contribui para uma construção mais humana e menos violenta das masculinidades.”

Já Gisele enfatiza que, embora esse debate devesse ser básico, ainda está longe de ser uma realidade. “Sei que deveria ser algo natural, mas infelizmente não é. Na prática, a gente sabe que não funciona assim”, conclui.

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