Com escalada do abandono em MS, perfis sobre paternidade viram estratégia de conscientização
Cada vez mais crianças perdem o nome do pai nas certidões de nascimento em Mato Grosso do Sul. Nos últimos 10 anos, foram mais de 30 mil nascidos no Estado sem a identificação do genitor. Esse dado é o principal indicador do chamado abandono parental. No entanto, o conceito é abrangente e composto por outras camadas de classificação, e é justamente nelas que reside a subnotificação da ausência dos pais na vida dos filhos.
O avanço do fenômeno social, cujas implicações podem atingir a esfera penal, contrasta com a pulverização de conteúdos sobre paternidade. Nas redes sociais, influenciadores passaram a servir de estratégia de enfrentamento ao abandono parental e à presença disfuncional masculina nos lares, mas quem lida com os casos na Justiça aponta ressalvas.
“Boas práticas divulgadas tendem sempre a contribuir, porque podem promover uma conscientização maior àqueles pais que, às vezes, veem uma postagem e falam: ‘Poxa, é, eu tenho como melhorar nisso. Olha que bacana que esse pai tá fazendo por esse filho’. Mas nós temos que nos atentar, porque existe o mundo real e o mundo virtual. E nem sempre aquilo que tá sendo demonstrado é o que aquele pai realmente faz na rotina, longe das câmeras, longe da rede social”, afirma a promotora Fabrícia Barbosa de Lima, titular da Promotoria da Infância e Juventude de Mato Grosso do Sul.
Segundo os dados do Portal da Transparência de Registros Civis, o percentual de crianças que não tiveram o nome do pai inserido na certidão de nascimento saltou de 5,3% para 7,7%, com aumento progressivo anualmente.

| Período | Total de Nascimentos | Sem Registro do Pai | Taxa Percentual |
| 2016-2017 | 49.693 | 2.681 | 5,30% |
| 2017-2018 | 49.557 | 2.683 | 5,40% |
| 2018-2019 | 49.016 | 3.270 | 6,60% |
| 2019-2020 | 47.958 | 3.220 | 6,70% |
| 2020-2021 | 44.520 | 3.090 | 6,90% |
| 2021-2022 | 44.885 | 3.116 | 6,90% |
| 2022-2023 | 43.130 | 3.158 | 7,30% |
| 2023-2024 | 42.701 | 3.164 | 7,40% |
| 2024-2025 | 40.300 | 3.044 | 7,50% |
| 2025-2026 | 41.478 | 3.215 | 7,70% |
Para a promotora, além da falta de registro do nome do pai nas certidões de nascimento, outro dado que revela a dimensão do abandono parental em MS são as filas intermináveis de ações por cobrança de pensão alimentícia nas Varas de Família.
“Nós percebemos ali o quanto é expressivo o abandono material, pelo quantitativo de execuções de pensão alimentícia em andamento. Então, são inúmeros, são milhares, são pais que não estão ali provendo o mínimo para a subsistência dos filhos”, avalia.
Ela explica que o abandono parental é a omissão da figura genitora na vida da criança. Assim, para além do registro documental, o fenômeno social se apresenta também como:
- Abandono parental material: quando o genitor não se compromete com o financiamento das necessidades dos filhos;
- Abandono parental intelectual: quando há omissão na formação escolar das crianças;
- Abandono parental afetivo: omissão grave e contínua do genitor com cuidados emocionais, morais e de convivência.
“O Ministério Público atua para que esses números sejam reduzidos, para que haja esse reconhecimento no assento de nascimento, que é algo tão relevante, tão importante para o exercício da cidadania de toda criança”, enfatiza a promotora.
Do anonimato à influência
Quando o pequeno Guilherme, de 3 anos, chegou ao lar do casal campo-grandense Francisco Silvio dos Santos Júnior, 35, e Fernanda Pereira Vieira, 32, as descobertas da nova fase familiar após 13 anos de uma convivência ‘a dois’ transformaram a rotina e reafirmaram os propósitos da união.
A gestação tranquila e a adaptação leve motivaram a chegada de um novo integrante, Henrique, descoberto 7 meses após o nascimento do primogênito. No entanto, para provar que cada filho se diferencia do outro, o caçula se mostrou mais exigente no cotidiano do casal.
“O Guilherme foi uma uma criança muito tranquila, ele dormia muito. Já o Henrique, não. Eu acho que eu fui ser pai com ele, porque ele foi uma criança normal, com cólica, não dormia à noite. E como tinha o outro filho que também era pequeno, foi muito desafiador para ela [Fernanda]”, lembra o contador, que assumiu a responsabilidade de sustentar a casa para garantir, por escolha da esposa, a oportunidade de dedicação integral à maternidade.
Até aquele momento, Francisco registrava a rotina para o arquivo pessoal da família, mas, um dia após o trabalho, chegou em casa e o que encontrou era um cenário de guerra.
“A casa toda suja, louça suja, suja, tudo bagunçado. E eu fui entrando, falei: “Cara, assaltaram a minha casa, né? Levaram a minha esposa, todo mundo”. Aí eu abri o quarto das crianças. Ela estava lá. Ela me olhou, começou a chorar. E aí a gente não falou nada, sabe? A gente se olhou assim, eu catei um menino, e a gente, junto, começou a organizar para que eles fossem dormir”, relata.
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