Contrato milionário na saúde de Campo Grande expõe falhas estruturais e fragiliza gestão Adriane Lopes
Um relatório técnico do Conselho Municipal de Saúde (CMS) de Campo Grande lança novos questionamentos sobre a condução da política de saúde sob a gestão da prefeita Adriane Lopes, ao identificar inconsistências relevantes na execução de um contrato milionário voltado à limpeza e higienização da rede pública.
O documento analisa o contrato nº 83/2020, firmado para atender unidades de saúde do município, e reúne evidências de problemas que vão desde a escassez de trabalhadores até falhas recorrentes no fornecimento de materiais básicos. A amplitude e a repetição dos apontamentos sugerem mais do que episódios pontuais: indicam fragilidades na fiscalização e possíveis lacunas na gestão administrativa da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau).
Déficit de pessoal e cobertura insuficiente
A análise abrangeu 78 unidades de saúde e revelou um cenário de subdimensionamento da força de trabalho. Foram identificados 108 profissionais em atividade, número significativamente inferior à necessidade mínima estimada de 189 trabalhadores. Dependendo do critério adotado, o déficit pode chegar a 83 funcionários.
A insuficiência de pessoal não é isolada: 60 das unidades vistoriadas apresentaram indícios de equipes incompletas. Na prática, isso compromete a execução adequada de serviços básicos e levanta dúvidas sobre o cumprimento das obrigações contratuais.

Falhas operacionais persistentes
O relatório também consolida registros de falhas no abastecimento de insumos essenciais, como papel higiênico e papel toalha, além de situações mais críticas, como limpeza realizada apenas com água — um indicativo direto de precarização do serviço.
Esses problemas já haviam sido formalmente comunicados à Sesau em fevereiro de 2026. À época, a secretaria reconheceu atrasos no fornecimento e atribuiu a situação a dificuldades logísticas da empresa contratada. No entanto, inspeções posteriores mostram que as irregularidades persistiram, revelando incapacidade de correção efetiva por parte da gestão.
Entre as falhas recorrentes identificadas estão:
– ausência ou insuficiência de insumos básicos
– indisponibilidade de equipamentos obrigatórios
– atrasos frequentes na reposição de materiais
– manutenção irregular de áreas externas
– condições inadequadas de limpeza, como pisos encardidos
A repetição desses problemas em diferentes unidades reforça a hipótese de falha sistêmica, o que amplia a responsabilidade da gestão municipal, responsável pela fiscalização e garantia da qualidade dos serviços contratados.
Contrato de alto valor sob questionamento
O contrato com a empresa Produserv Serviços Ltda. prevê a execução integral dos serviços, incluindo fornecimento de mão de obra, equipamentos e insumos. Os valores envolvidos chamam atenção:
– cerca de R$ 2,8 milhões por mês
– aproximadamente R$ 34,4 milhões no total estimado
– R$ 36,7 milhões pagos apenas em 2025
Além do volume financeiro expressivo, o edital estabelece obrigações claras, como a manutenção de estoque mínimo de materiais por 30 dias e metas de desempenho sujeitas a penalidades em caso de descumprimento. Diante das falhas constatadas, surge o questionamento inevitável: houve fiscalização eficaz por parte da administração municipal?
Recomendações e lacunas na responsabilização
Embora o relatório não atribua responsabilidade direta, ele aponta elementos suficientes para justificar a abertura de apurações mais aprofundadas. Entre as medidas recomendadas estão:
– auditoria no quantitativo de funcionários
– verificação dos indicadores de desempenho (IMR)
– comprovação da entrega de insumos
– análise de possíveis glosas, sanções ou ressarcimentos
Também foi sugerida a ampliação da fiscalização para todas as unidades cobertas pelo contrato, uma vez que o levantamento atual representa apenas uma amostra.
Impacto potencial e fragilidade da gestão
O próprio Conselho alerta que os prejuízos financeiros podem ser superiores aos já estimados, caso as irregularidades se confirmem em outras unidades não analisadas. A recomendação é clara: a Controladoria-Geral do Município e a Sesau devem aprofundar a investigação, tanto do ponto de vista documental quanto operacional.
Mais do que um problema contratual, o caso expõe fragilidades na condução da saúde pública em Campo Grande. A persistência de falhas básicas, mesmo após notificações formais, evidencia dificuldades da gestão Adriane Lopes em garantir eficiência, controle e qualidade em serviços essenciais — um cenário que, em última instância, recai diretamente sobre o atendimento à população.
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