Internacional

Na contramão do mundo, as semelhanças entre Trump e o Brexit

A política do beggar-thy-neighbor adotada após o fim da Primeira Guerra Mundial, por meio da qual um país tenta remediar seus problemas econômicos por meios que tendem a piorar os problemas de outros países, fez com que os estados destruídos pela guerra fechassem suas fronteiras atrás de tarifas. A globalização deu lugar a conflitos e a uma guerra cambial que, aliada à falta de força política da Liga das Nações para resolução de contendas, teve como resultado a Segunda Guerra Mundial.

Por sua vez, a ordem mundial construída a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, com o advento da Organização das Nações Unidas (ONU) e uma prevalência de órgãos multilaterais para a condução da política internacional e, consequentemente, uma maior cooperação entre os países, provocou mudanças na forma como as nações soberanas se relacionam e como a paz é mantida desde então.

Através de órgão multilaterais, desde as grandes potências até Estados recém-criados tratam de assuntos de interesse comum utilizando-se de uma fórmula cooperativa que até então não havia conquistado resultados duradouros na esfera internacional. Nessa esteira, na década de 1990, principalmente após o fim da Guerra Fria, proliferaram iniciativas de cooperação regional, com destaque para a União Europeia, caso de maior sucesso, como também o Mercosul na América Latina. A globalização, impulsionada pelo avanço dos meios de transporte e de comunicação, finalmente alcançou todo o globo.

Tudo indicava que o caminho do futuro estava intrinsecamente ligado a uma maior cooperação entre os atores internacionais e que a globalização era inevitável, ao passo que contendas seriam resolvidas através de mecanismos de solução de controvérsias, onde o poder dos Estados não seria o fato predominante, mas sim o Direito Internacional e as regras e normas preestabelecidas. A anarquia do sistema internacional finalmente encontrara seu fino equilíbrio.

Entretanto, este nível de cooperação envolve a cessão de parte da soberania dos Estados para as instituições coletivas. Decisões que antes eram tomadas de forma monocrática, dentro das fronteiras e independentes de interferência de atores externos – ao menos não de forma direta – passaram a depender de uma intricada e nem sempre fácil convergência de diferentes interesses. A via colaborativa, por sua vez, leva a decisões que nem sempre abarcam os interesses de todos os envolvidos e, ao passo que a liberdade para decidir livremente os rumos de um país são inerentes ao Estado Westfaliano, a ingerência externa sobre assuntos internos acaba sendo um fator que dá força aos discursos nacionalistas da atualidade.

Deste modo, ao longo do primeiro quinto do século XXI as bases desse sistema multipolar e globalizado parecem estremecidas com o advento de novas políticas protecionistas, guerras cambiais, o recrudescimento de discursos nacionalistas e a crescente xenofobia. Entre diversos acontecimentos, dois podem ser tratados como os mais emblemáticos dessa tendência: a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA e a votação para a saída do Reino Unido da União Europeia, conhecido como Brexit.

O discurso anti-imigratório foi central em ambos os casos: um dos pontos controversos da campanha de Trump foi a construção de um muro entre a fronteira dos EUA com o México e trazer de volta empregos industriais do exterior, especialmente na indústria automotiva. No Reino Unido, os partidários da posição leave– pela saída da UE – afirmavam que desta forma poderiam limitar a entrada de trabalhadores europeus na ilha e retomar o controle das fronteiras.

O discurso trumpista de fazer os EUA “grande outra vez” está atrelado ao levante de novas barreiras comerciais contra produtos importados, especialmente da China, como também contra matérias primas oriundas de antigos parceiros, como União Europeia, México, Canadá e até mesmo o Brasil. No caso do Reino Unido, o discurso do Brexit incluía a promessa de que seriam liberadas até 350 milhões de libras a mais por semana para a aplicação na saúde pública. Nos dois casos, o discurso nacionalista, e de certa forma antiglobalização, acaba por ser o ponto de convergência de todas essas propostas.

Todavia, o maior problema das políticas que vão na contramão da globalização é acreditar que esse é um processo que pode ser revertido. O fato é que o caminho da integração global não tem volta e tentativas para retardar o processo serão somente fontes de fortes impactos econômicos, como já vem sentindo o Reino Unido mesmo antes de deixar de fato a UE.

Também o nível de conexão das cadeias globais de fornecimento dificilmente permitiria o retorno aos níveis de emprego da década de 1960 da indústria metalúrgica do antigo centro industrial norte-americano, conhecido atualmente como rust belt. No Reino Unido, a debandada de empresas que dependem do acesso à UE, como as do ramo financeiro, ameaça transferir milhares de empregos para os outros países-membros e reduzir a importância centenária dos britânicos para o comércio mundial. Alemães, franceses e chineses não demorarão a ocupar esses espaços, justamente mantendo a lógica da integração mundial.

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