Internacional

O que quer Donald Trump com seu America First?

O slogan America First tem sido utilizado por políticos norte-americanos ao longo dos tempos, tanto por democratas como por republicanos. Na eclosão da Primeira Guerra Mundial, o presidente Woodrow Wilson usou o lema para definir sua versão de neutralidade, e assim também fez o presidente Harding durante as eleições de 1920. Nos anos posteriores, o slogan America First foi amplamente utilizado pelo comentarista Pat Buchanan, que pregava um política externa pautada nos conceitos do America First Committee (AFC), organização não-intervencionista contra a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Durante a eleição presidencial de 2008, o candidato republicano John McCain utilizou o similar Country First como um de seus slogans.

No entanto, o America First tornou-se de fato mundialmente conhecido em 2016, quando Donald Trump abraçou pela primeira vez o slogan durante uma entrevista ao New York Times. Nos meses de campanha presidencial que se seguiram, sem se referir ao uso anterior de Pat Buchanan ou à AFC, Trump disse que o America First seria o principal tema de sua administração, e defendeu posições nacionalistas e anti-intervencionistas. Após sua eleição para a presidência, o America First tornou-se a doutrina oficial de política externa da administração Trump, sendo o tema do discurso de posse.

America First desde então embasou uma série de decisões do governo norte-americano, principalmente relacionadas à participação do país em organismos internacionais e iniciativas multilaterais. Em 2017, Trump retirou seu país do Tratado de Livre-Comércio Ásia-Pacífico (TPP), assinado em 2015 com 11 países da Ásia-Pacífico – entre os quais não estava a China – que representam 40% da economia mundial. Em seu lugar, o presidente quer negociar tratados bilaterais para “trazer os empregos e as indústrias ao solo americano”. No mesmo ano, Trump também anunciou a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, assinado por 195 países em 2015 e que tem o objetivo de impedir o aumento da temperatura do planeta em mais de 2 graus Celsius.

Também em 2017 os EUA ainda anunciaram o encerramento da sua participação no Pacto Mundial sobre Migração por considerar que inclui “disposições que são incompatíveis com as políticas” de Trump em matéria de imigração e de refugiados. Desde então, o governo norte-americano enrijeceu seu controle de fronteiras e adotou políticas mais duras para concessão de visto para refugiados. Em outra decisão polêmica, somente sete dias após a posse, Trump assinou decreto que barrava viajantes de sete países muçulmanos. Já na fronteira com o México, onde milhares de centro-americanos em caravanas tentam entrar nos EUA, a presença massiva do exército fez as detenções de imigrantes ilegais aumentarem para 51.856 pessoas em novembro de 2018, um novo recorde, e a proposta de campanha de Trump da construção de um muro na fronteira entre os dois países ainda não foi descartada.

No campo do comércio, Trump travou duras negociações com o México e Canadá, seus parceiros desde 1994 no Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês), principalmente por considerar que esse acordo contribuiu para trasladar ao México milhões de empregos industriais. Em outubro os três chegaram a um novo tratado batizado de USMCA, junção dos nomes dos três países, considerado por Trump mais favorável aos seus interesses. A Organização Mundial do Comércio (OMC) também é uma das vítimas do America First: alvos de sete painéis para julgar barreiras criadas pelo governo Trump, os EUA têm resistido em liberar a nomeação de novos juízes para o Órgão de Apelação como forma de retaliação. Atualmente, o tribunal tem apenas quatro juízes, o que acarreta atrasos na análise de disputas comerciais entre os países. Em dezembro de 2019, se nada for feito, o tribunal passará a ter apenas um membro e, assim, fechará suas portas, impossibilitado de julgar novos casos.

Trump também travou uma dura batalha tarifária com seus aliados históricos da União Européia, ameaçando taxar principalmente veículos produzidos nos países do velho continente. Também impôs maiores tarifas ao aço e alumínio importado de diversos países ao redor do mundo, atingindo alguns de seus maiores parceiros políticos, incluindo o Brasil, com a justificativa de “proteger a segurança nacional dos efeitos do excesso de oferta global de aço e de alumínio”. A maior batalha tarifária atual, todavia, é travada com a China, a segunda maior economia do mundo. Os constantes superávits chineses na balança comercial com os EUA fez com que Trump aumentasse as tarifas sobre US$ 200 bilhões de produtos oriundos do país asiático. Com a retaliação da China, a guerra comercial entre as duas maiores economias afetou os mercados e ameaça o crescimento do PIB mundial. Apesar da trégua de 90 dias anunciada durante a última reunião do G20, realizada no começo de dezembro na Argentina, o mundo ainda prende a respiração aguardando os próximos passos imprevisíveis da nova era trumpista.

Referências

_______________. Detenções de ilegais na fronteira EUA-México batem recorde. EBC, 7 dez. 2018. Disponível em <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2018-12/detencoes-de-ilegais-na-fronteira-eua-mexico-batem-recorde>. Acesso em 08 dez. 2017.

_______________. America First, ou America Alone? A agenda de retiradas de Trump. Estado de Minas, 3 dez. 2017. Disponível em <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2017/12/03/interna_internacional,921631/america-first-ou-america-alone-a-agenda-de-retiradas-de-trump.shtml>. Acesso em 7 dez. 2018.

_______________. America First Policy. Wikipedia. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/America_First_(policy)>. Acesso em 7 dez. 2018.

_______________. Brasil fica isento de tarifa de aço dos EUA, mas não da de alumínio. Revista Exame, 31 maio 2018. Disponível em <https://exame.abril.com.br/economia/brasil-fica-isento-de-tarifa-de-aco-dos-eua-mas-nao-da-de-aluminio/>. Acesso em 7 dez. 2018.

_______________. Apesar de ‘trégua’ negociada no G20, guerra comercial China-EUA está longe do fim: qual o impacto para o Brasil?. G1, 2 dez. 2018. Disponível em <https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/12/02/apesar-de-tregua-negociada-no-g20-guerra-comercial-china-eua-esta-longe-do-fim-qual-o-impacto-para-o-brasil.ghtml>. Acesso em 9 dez. 2018.

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