Obesidade infantil avança em MS e expõe crianças à pressão estética e ao preconceito

3 de junho de 2026
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“Você está muito gorda; não pode ser a única gorda da família.” Reflexo de uma sociedade que supervaloriza corpos magros e estigmatiza pessoas acima do peso, a frase, por si só, já seria cruel. O contexto, porém, torna a situação ainda mais chocante.

Essa foi a justificativa apresentada por uma avó, de 68 anos, para aplicar tirzepatida, a chamada “caneta emagrecedora”, em uma criança de 11 anos sem diagnóstico médico, prescrição ou qualquer indicação para tal uso.

O caso, que gerou indignação, ocorreu em maio, em uma cidade do interior de Mato Grosso do Sul. De tão absurdo, chegou à Polícia Civil. A criança obteve medida protetiva contra a avó e o tio, de 38 anos. Segundo as investigações, as doses do medicamento eram contrabandeadas do Paraguai

Mas as consequências desse episódio vão além dos riscos físicos provocados pelo uso irregular do remédio. Especialistas alertam que situações como essa reforçam o estigma e a pressão estética enfrentados por crianças e adolescentes com obesidade.

Diferentemente de outras doenças, a obesidade muitas vezes não é vista como uma condição de saúde, mas como resultado de falhas individuais, o que alimenta preconceitos e discriminação. Desde cedo, crianças e adolescentes com excesso de peso precisam lidar com a rejeição, a exclusão social e o bullying, que comprometem o desenvolvimento emocional.

Dados do Atlas Global da Obesidade e da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que, até 2030, o Brasil pode se tornar o 5º país no mundo com mais crianças e adolescentes obesos. O estudo também relata que, se não houver ações reais, as chances de mudar essa situação são de apenas 2%.

Endocrinologista pediátrica e coordenadora da pós-graduação de Endocrinologia Pediátrica da AFEA, Luciana Corrêa, destaca que a obesidade infantil deve ser compreendida como uma doença crônica, progressiva e multifatorial, e não apenas como consequência de escolhas individuais relacionadas à alimentação e à prática de exercícios físicos.

Segundo a especialista, fatores biológicos desempenham papel fundamental no desenvolvimento da doença. Ela explica que o hipotálamo, região do cérebro responsável por regular a fome, a saciedade e o gasto energético, pode apresentar alterações que levam a um aumento da fome e à redução da sensação de saciedade.

“Essa desregulação cerebral faz com que muitas vezes o paciente sinta mais fome do que o habitual e tenha dificuldade para se sentir satisfeito após as refeições”, afirma.

Luciana também destaca a influência de fatores genéticos e da microbiota intestinal. De acordo com ela, alterações no conjunto de bactérias que habitam o intestino podem favorecer uma maior absorção de nutrientes e desencadear processos inflamatórios, contribuindo para o ganho de peso e para a manutenção da obesidade.

Solução para a obesidade infantil?

Com o avanço da ciência, surgem novas alternativas. Em abril, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso da tirzepatida no tratamento da diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes de 10 a 17 anos. A decisão reacendeu um debate que vai além da eficácia do medicamento: até que ponto as chamadas “canetas emagrecedoras” estão sendo vistas como uma resposta simples para um problema complexo?

Ao contrário da diabetes tipo 1, uma doença autoimune, o tipo 2 está frequentemente associado ao excesso de peso, à resistência à insulina e a fatores ligados ao estilo de vida, como alimentação inadequada e sedentarismo. Nesse contexto, a tirzepatida, comercializada no Brasil como Mounjaro, recebeu autorização para pacientes mais jovens após análise técnica da agência reguladora.

A ampliação da faixa etária, no entanto, não significa que o medicamento represente uma solução para a obesidade infantil, como no caso ocorrido em MS.

Para Diana Sá, médica e também professora do curso de pós-graduação em Endocrinologia da Afya Educação, existe o risco de interpretação equivocada por famílias que enfrentam a angústia de ver crianças e adolescentes ganhando peso.

“A tirzepatida recebeu aprovação para o tratamento de diabetes tipo 2, e não para obesidade. Quando falamos de um corpo em desenvolvimento, os cuidados são redobrados”, afirma.

Medicamentos podem ser indicados em alguns casos

No entanto, quando mudanças na alimentação e a prática de atividades físicas não são suficientes para controlar a obesidade, o tratamento medicamentoso vira uma alternativa. Luciana Corrêa explica que atualmente existem opções seguras e eficazes para crianças e adolescentes, desde que utilizadas com indicação médica e acompanhamento especializado.

Entre os medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade a partir dos 12 anos, estão a semaglutida (Ozempic) e a liraglutida. Segundo a especialista, esses recursos podem ser importantes aliados em casos específicos, mas não substituem as mudanças no estilo de vida.

“Precisamos entender a complexidade da obesidade, que vai muito além de simplesmente comer certo e se exercitar mais. Existem situações em que será necessário um tratamento medicamentoso”, afirma a endocrinologista.

Uso exige acompanhamento especializado

Ilustrativa. (Foto: Reprodução/Freepik)

Mesmo com prescrição, a endocrinologista alerta que esses medicamentos precisam de prescrição e acompanhamento de profissionais de saúde. O tratamento requer ajuste gradual das doses e monitoramento para evitar efeitos adversos, como vômitos, diarreia, desidratação, queda da pressão arterial e tonturas.

Outro risco é a redução excessiva do apetite. Embora isso possa levar à perda de peso, a criança ou o adolescente pode deixar de consumir quantidades adequadas de proteínas, vitaminas e minerais essenciais para o crescimento e o desenvolvimento.

Por isso, a especialista ressalta a importância do acompanhamento multidisciplinar, envolvendo endocrinologista pediátrico, nutricionista e educador físico.

Luciana também alerta para o uso indiscriminado de medicamentos entre adolescentes sem indicação clínica. Segundo ela, está cada vez mais comum o uso de substâncias como semaglutida, liraglutida e tirzepatida com objetivos exclusivamente estéticos.

“Não são canetinhas para emagrecer. São medicamentos que exigem cuidado e acompanhamento”, alerta.

Mercado ilegal cresce na fronteira

Enquanto a obesidade infantil avança no país, cresce também a procura por soluções rápidas para a perda de peso, muitas vezes sem acompanhamento médico. Segundo a Afya, apenas em janeiro de 2026, mais de 2,5 mil unidades de emagrecedores foram vendidas para menores de idade fora da faixa etária recomendada.

“Eu entendo a angústia dos pais, mas utilizar medicação sem indicação e sem acompanhamento pode trazer consequências importantes. Há interferência na absorção de nutrientes, na formação óssea e no eixo hormonal, além de aumentar o risco de osteoporose precoce e até de transtornos alimentares”, afirma Diana Sá.

Fiscalização apreendeu canetas e ampolas de retatrutida e tizerpatida, das marcas TG e Lipoless. (Divulgação, Vigilância Sanitária)

Em Mato Grosso do Sul, o cenário ganha contornos ainda mais preocupantes devido à fronteira com o Paraguai. O aumento da demanda por medicamentos para emagrecimento tem impulsionado um mercado paralelo cada vez mais lucrativo e difícil de fiscalizar.

Dados da Polícia Federal mostram que, somente no primeiro trimestre de 2026, houve a apreensão de 4.544 unidades desses medicamentos no Estado. O volume já supera todo o registrado ao longo de 2025, quando a Polícia retirou 3.400 itens de circulação.

Um em cada três jovens tem excesso de peso em MS

Em Mato Grosso do Sul, os números mostram que a obesidade infantil deixou de ser um problema restrito a casos isolados e passou a representar um desafio crescente para a saúde pública. O avanço do excesso de peso entre crianças e adolescentes acompanha uma transformação nos hábitos alimentares, na rotina de atividades físicas e até na forma de viver a infância.

Dados de 2025 do Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), consultados em maio de 2026, apontam que 33% das crianças sul-mato-grossenses de 0 a 9 anos apresentam excesso de peso, incluindo casos de sobrepeso, obesidade e obesidade grave. Ao todo, foram registrados 67.275 casos nessa faixa etária.

Quando a análise é ampliada para crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, o índice sobe para 34%, percentual acima da média nacional, de 33%. Na prática, isso significa que aproximadamente um em cada três jovens do Estado convive com algum grau de excesso de peso.

Pediatra e membro da ONA (Organização Nacional de Acreditação), Mariana Grigoletto avalia que os números refletem uma mudança importante no perfil de saúde das novas gerações. Segundo ela, o excesso de peso adquirido nos primeiros anos de vida tende a persistir na adolescência e na idade adulta, aumentando o risco de doenças crônicas e comprometendo a qualidade de vida.

“Além de ter consequências nos primeiros anos de vida, o excesso de peso na infância pode aumentar significativamente o risco de doenças crônicas na adolescência e na vida adulta. Isso reforça a importância da prevenção e do acompanhamento precoce.”

Em MS, 80% dos adolescentes consomem ultraprocessados

(Reprodução)

As mudanças nos hábitos alimentares durante a infância também refletem diretamente nos indicadores de saúde e nutrição do país. Dados do Sisvan mostram que os padrões de consumo das crianças e adolescentes vêm piorando ao longo dos anos, principalmente no que diz respeito à qualidade da alimentação.

Entre adolescentes de 10 a 19 anos de MS, 85% consomem alimentos ultraprocessados regularmente, enquanto 69% ingerem bebidas adoçadas. Além disso, 64% costumam fazer refeições assistindo à televisão, 53% consomem hambúrgueres e embutidos com frequência e 43% ingerem macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote ou biscoitos salgados.

Mariana Grigoletto ressalta que, além de uma alimentação equilibrada, é fundamental incentivar a prática regular de atividades físicas e limitar o tempo de exposição às telas, como celulares, TVs e outros dispositivos eletrônicos.

“Formar hábitos saudáveis desde cedo é um fator decisivo para evitar o desenvolvimento da obesidade e de outras doenças associadas. Embora a predisposição genética também possa influenciar o surgimento da condição, os hábitos de vida e o ambiente em que a criança está inserida desempenham papel fundamental na prevenção e no controle da obesidade infantil”, explica.

Por outro lado, os indicadores considerados bons apresentam percentuais relativamente altos. Entre os adolescentes avaliados, 83% relataram consumir feijão regularmente, 80% realizam as três principais refeições do dia, 71% consomem verduras e legumes e 70% incluem frutas na alimentação.

Para especialistas, a coexistência desses hábitos revela uma transformação no padrão alimentar de crianças e adolescentes brasileiros. Mesmo quando alimentos saudáveis fazem parte da rotina, eles frequentemente dividem espaço com refrigerantes, embutidos, salgadinhos e outros produtos ultraprocessados, associados ao ganho excessivo de peso e ao desenvolvimento de doenças crônicas.

Impactos psicológicos

Entre as consequências mais conhecidas da obesidade infantil, estão o aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares. Mas os efeitos não se limitam ao organismo. Em uma fase marcada pela construção da identidade e das relações sociais, o excesso de peso também pode afetar a autoestima, favorecer o isolamento e aumentar a exposição ao bullying.

Psicóloga especializada em atendimento materno-infantil, Keyth Gimenez Goyano explica que a obesidade infantil é uma das maiores fontes de problemas emocionais na infância. A constante exposição a comentários negativos e à marginalização pode criar um ciclo de isolamento, onde a criança se fecha socialmente, agravando ainda mais sua condição emocional.

“A obesidade infantil afeta tanto o desenvolvimento físico quanto o emocional das crianças, especialmente em questões relacionadas à autoestima e autoimagem, por isso, na psicoterapia, ajudamos as crianças e as famílias a lidarem com essas questões”, diz.

Da falta ao excesso

Embora 62,8% das crianças avaliadas apresentem peso adequado, o levantamento mostra que cerca de 37% convivem com algum tipo de alteração nutricional, seja por excesso de peso ou por desnutrição.

No país, cerca de 80% das crianças com até cinco anos consomem regularmente alimentos ultraprocessados, como biscoitos recheados, salgadinhos e refrigerantes. Ao mesmo tempo, mais de 80% delas não atingem a recomendação da OMS de praticar pelo menos 60 minutos de atividade física por dia.

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