Quatro mortes em um único domingo fazem MS atingir 89 óbitos em intervenções policiais em 2026

28 de julho de 2026
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Mato Grosso do Sul registrou, em poucas horas deste domingo (26), quatro mortes decorrentes de intervenções policiais nas cidades de Ladário, Ivinhema e Sidrolândia. Com os casos, chegou a 89 o número de pessoas mortas em ações das forças de segurança no Estado em 2026, quantitativo já superior aos 73 registros contabilizados oficialmente durante todo o ano de 2025.

O episódio mais recente ocorreu por volta das 19h, na Rua Onze, no Bairro Nova Aliança 2, em Ladário, município localizado a 426 quilômetros de Campo Grande. A vítima foi Joilson Souza de Oliveira, de 49 anos, conhecido como “Chacal”, que morreu após ser baleado durante uma ação do Batalhão de Choque da Polícia Militar.

Segundo a corporação, equipes realizavam buscas por um homem que havia rompido a tornozeleira eletrônica e seria investigado por envolvimento em crimes recentes. Durante o patrulhamento, os policiais identificaram um indivíduo com características semelhantes às do procurado. Conforme o relato oficial, ao perceber a aproximação da equipe, ele correu para o interior de um terreno, sendo acompanhado pelos militares até os fundos de uma residência.

A versão apresentada pelo Choque sustenta que Joilson estava armado com um revólver e desobedeceu às ordens para soltá-lo. Ainda de acordo com a Polícia Militar, ele manteve a arma apontada na direção dos policiais, que efetuaram disparos.

Ferido, Joilson foi socorrido pelos próprios policiais e encaminhado ao Hospital de Corumbá, onde morreu. A área foi isolada para a realização dos trabalhos periciais.

Durante as buscas no imóvel, os policiais apreenderam um revólver calibre .38, seis munições intactas, 1,166 quilo de maconha e 1,7 grama de cocaína. Também foi localizada uma tornozeleira eletrônica rompida que, conforme informado pela corporação, pertenceria ao filho de Joilson.

Uma pessoa encontrada na residência declarou aos policiais que havia ido ao local para consumir drogas com Joilson. O depoimento foi encaminhado para investigação. Segundo o Choque, o material apreendido foi avaliado em aproximadamente R$ 7 mil.

Histórico policial

Os registros policiais atribuídos a Joilson remontam a 2007. Ao longo dos anos, ele figurou como autor ou suspeito em ocorrências envolvendo ameaça, crimes patrimoniais, tráfico de drogas, posse e porte ilegal de arma de fogo, lesão corporal, receptação, disparo de arma de fogo e tentativas de homicídio.

Os primeiros registros incluem ameaça, porte ilegal e posse irregular de arma de fogo, além de violação de domicílio. Em 2009, passaram a constar ocorrências por lesão corporal dolosa, ameaça, dano, difamação e perturbação da tranquilidade.

Em 2011, surgiram registros por furto, receptação, ameaça, disparo de arma de fogo e tentativa de homicídio. Dois anos depois, a ficha criminal foi ampliada com anotações por tráfico de drogas, receptação, furto qualificado, porte ilegal e disparo de arma de fogo, tentativa de homicídio e difamação.

Já em 2015, foram registrados novos casos relacionados a tráfico de drogas, associação para o tráfico e porte ilegal de arma de fogo. Em 2019, constavam ocorrências por furto qualificado, furto de veículo, furto praticado em concurso de pessoas, uso de chave falsa, lesão corporal, injúria, ameaça e furto.

Em 2021, houve registro por injúria no contexto de violência doméstica. A ficha também reúne processos criminais que resultaram em condenações, entre elas uma pena de seis anos, dois meses e sete dias, além de outras penas posteriormente consolidadas.

O histórico inclui ainda diversas movimentações no sistema prisional, como prisões em flagrante, progressões de regime, transferências, fuga e evasão para a Bolívia, seguida de recaptura.

Outras três mortes ocorreram horas antes

Antes da ocorrência em Ladário, outras três mortes haviam sido registradas durante operações policiais no interior do Estado.

Em Ivinhema, Lucas Maciel Nunes, de 21 anos, e André da Silva de Andrade Gama, de 22, morreram durante uma ação do Batalhão de Choque realizada na Avenida Reynaldo Massi, no Bairro Vitória.

De acordo com a Polícia Militar, Lucas teria efetuado disparos contra os policiais, enquanto André apareceu armado com uma pistola durante a ocorrência. Um dos dois morreu no local e o outro não resistiu após ser socorrido.

Na operação foram apreendidos uma pistola calibre 9 milímetros, um revólver, munições e porções de maconha, cocaína, pasta-base e haxixe.

O caso ganhou repercussão após a divulgação de um áudio captado por uma câmera de segurança. Na gravação, um homem implora repetidas vezes para não ser morto. O conteúdo passou a alimentar o debate sobre a atuação policial. Em resposta, o comando da unidade afirmou que os pedidos de socorro ocorreram somente após o suspeito já ter sido baleado e que não houve novos disparos a partir daquele momento.

Também em Sidrolândia, Natanael Dener Marques Medeiros, conhecido como “Biju”, morreu após ser atingido por policiais militares.

Segundo a corporação, ele era procurado após denúncia de que estaria planejando um assalto a uma farmácia. A versão oficial informa que Natanael correu para o interior de um imóvel e surgiu armado, circunstância que teria motivado os disparos. Ele foi levado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sidrolândia, mas morreu. No imóvel foram apreendidos armas, munições, drogas, aparelhos celulares, uma balança de precisão, luvas e uma balaclava.

Divergência nos números oficiais

Com a morte de Joilson Souza de Oliveira, o levantamento realizado pela reportagem aponta 89 mortes decorrentes de intervenções policiais em Mato Grosso do Sul em 2026.

O total, entretanto, diverge dos dados divulgados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), que contabiliza 75 mortes no mesmo período. Ainda assim, ambos os levantamentos indicam crescimento em relação ao ano anterior, já que os 89 casos apurados pela reportagem superam os 73 registros oficiais contabilizados ao longo de todo o ano de 2025.

Poucas imagens e muitas perguntas

Embora os números revelem o crescimento das mortes durante intervenções policiais, eles dizem pouco sobre a dinâmica de cada ocorrência.

Entre o início de 2025 e esta segunda-feira (27), foram contabilizadas 162 mortes decorrentes de ações policiais em Mato Grosso do Sul. Em 2025, houve 73 vítimas distribuídas em 64 ocorrências. Em 2026, o Estado já alcançou 89 mortes antes mesmo do encerramento do ano, ultrapassando todo o registro oficial do período anterior.

Na maior parte desses episódios, a primeira versão dos fatos é apresentada pelos próprios agentes envolvidos. Os relatos costumam apontar que o suspeito teria reagido à abordagem, efetuado disparos, apontado arma contra a equipe ou avançado em direção aos policiais.

Quando inexistem testemunhas independentes ou registros audiovisuais da abordagem, a reconstrução dos acontecimentos passa a depender da confrontação entre essa versão inicial e os demais elementos produzidos durante a investigação, como perícias, laudos técnicos, depoimentos e demais provas.

A localização das ocorrências ajuda a compreender parte da dificuldade na obtenção de registros independentes. Muitas ações acontecem em áreas de mata, propriedades rurais, chácaras, granjas, estradas ou locais afastados dos centros urbanos. Entretanto, mortes também ocorrem em bairros densamente povoados, residências, avenidas e ruas movimentadas, ambientes onde seria possível imaginar a existência de câmeras de monitoramento.

Mesmo assim, a presença em área urbana não garante a existência de imagens disponíveis. Os equipamentos podem não existir, estar inoperantes, não enquadrar o ponto exato da ocorrência ou ter seus registros preservados sob sigilo durante as investigações.

A inexistência de gravações, por si só, não confirma nem invalida a versão apresentada pelas forças de segurança. Ela apenas reduz a quantidade de elementos independentes capazes de reconstruir com precisão a sequência dos fatos.

Quando imagens surgem, contudo, elas podem alterar significativamente o rumo das investigações.

Em março de 2026, Wellington dos Santos Vieira, de 27 anos, morreu durante uma abordagem da Polícia Militar em Anastácio. Inicialmente, a versão oficial afirmava que ele teria sacado uma faca e avançado contra os policiais. Um vídeo obtido pela reportagem do site Campo Grande News mostrou, porém, Wellington tentando fugir no instante em que foi baleado.

A gravação tornou-se peça central da investigação. Dois policiais militares foram presos temporariamente e afastados das funções, fazendo do episódio um dos poucos casos conhecidos em 2026 com registro audiovisual do momento da ação policial que terminou em morte.

Situação semelhante já havia ocorrido em 2025, quando Rafael da Silva Costa, de 35 anos, morreu durante uma abordagem no Bairro Tarsila do Amaral, em Campo Grande. Imagens captadas por câmeras de segurança registraram parte da ocorrência e passaram a questionar a versão inicial de que ele teria resistido à abordagem. Posteriormente, dois policiais militares foram presos e passaram a responder judicialmente pelo caso.

Nem toda gravação relacionada a uma ocorrência, entretanto, registra o momento da intervenção policial.

Em maio de 2025, o site divulgou imagens que mostravam Erick Miranda Gomes de Souza tentando arrombar o portão de uma residência. Dias depois, ele morreu durante uma ação policial. O vídeo, porém, retratava um episódio anterior e não a abordagem que resultou na morte.

Em abril, o comando da Polícia Militar informou que a adoção de câmeras corporais não figurava entre as prioridades imediatas da corporação, embora tenha manifestado apoio à utilização da tecnologia.

Enquanto o uso desses equipamentos não se torna realidade, as investigações sobre ocorrências sem registros audiovisuais permanecem fundamentadas principalmente em perícias, laudos, depoimentos de testemunhas e nas versões apresentadas pelos próprios agentes envolvidos nas ações.

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