Sesau busca apoio federal para fiscalizar contas da Santa Casa após mudança na gestão

1 de outubro de 2026
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A troca no comando da Santa Casa de Campo Grande abriu uma nova frente na tentativa do poder público de acompanhar as contas do hospital e identificar como são aplicados os recursos destinados à instituição. Após a Justiça afastar a antiga diretoria e nomear uma administração provisória por 180 dias, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) passou a buscar apoio do governo federal para reforçar a fiscalização financeira.

O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, informou nesta segunda-feira (28) que procurou o Ministério da Saúde e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) para tratar da situação. A expectativa é obter suporte técnico para examinar as contas da instituição, embora, até o momento, não haja confirmação de que uma equipe federal será enviada a Campo Grande.

A iniciativa foi detalhada por Vilela durante a prestação de contas da Sesau referente ao segundo quadrimestre de 2026, apresentada na Câmara Municipal. Segundo ele, a mudança temporária na gestão do hospital pode facilitar o acesso às informações financeiras que município e Estado vinham cobrando antes mesmo do afastamento da diretoria.

“Nós cobrávamos a transparência do recurso”, afirmou o secretário.

Vilela ainda deverá se reunir com Luiz Alberto Kanamura, nomeado pela Justiça para comandar provisoriamente a administração da Santa Casa. O primeiro encontro de alinhamento deve ocorrer nesta semana e terá participação do Ministério Público.

Pressão por transparência antecede afastamento da diretoria

A tentativa de ampliar o controle externo sobre as finanças da Santa Casa não começou com a intervenção judicial. A discussão atravessa pelo menos os últimos meses da crise financeira do hospital e ganhou força à medida que a instituição reivindicava mais recursos públicos para manter os atendimentos.

Em dezembro de 2025, um acordo emergencial destinado a permitir a liberação de recursos já previa auditoria externa, prestação de contas e acompanhamento da aplicação do dinheiro.

O embate voltou a ganhar dimensão em junho deste ano, quando a então direção da Santa Casa reivindicava um acréscimo mensal de R$ 15 milhões nos repasses. Na ocasião, Vilela condicionou qualquer discussão sobre aumento dos valores ao conhecimento dos custos efetivos dos serviços realizados pelo hospital.

A posição da Sesau era de que município e Estado precisavam ter acesso aos números da instituição antes de assumir novos compromissos financeiros. A Prefeitura também cobrava o cumprimento das metas contratadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e defendia a realização de perícia judicial para dimensionar receitas, despesas e necessidades de custeio.

O secretário estadual de Saúde, Maurício Simões, adotou posicionamento semelhante. Ele sustentava que o exame das contas era necessário tanto para esclarecer os custos operacionais quanto para verificar o déficit financeiro apresentado pela administração da Santa Casa.

Essas discussões passaram a integrar uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público, que buscava uma saída para a crise financeira sem comprometer a continuidade dos atendimentos prestados pelo hospital.

Crise financeira precedeu investigação criminal

A deterioração da situação financeira levou município e Estado a anunciarem, no início de setembro, um aporte emergencial de R$ 4 milhões destinado à compra de insumos. Do total, R$ 1 milhão ficou sob responsabilidade da Prefeitura de Campo Grande e outros R$ 3 milhões seriam repassados pelo Governo do Estado.

Antes que a crise de custeio encontrasse uma solução, porém, a Santa Casa passou também ao centro de uma investigação criminal.

Deflagrada em 11 de setembro pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), com participação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), a Operação Antidotum apura suspeitas de fraudes e desvios de pelo menos R$ 4,9 milhões em contratos relacionados à instituição.

Uma das linhas de investigação envolve um contrato para digitalização de prontuários médicos. Segundo a apuração, teriam sido realizados pagamentos sem a correspondente prestação dos serviços. Outra frente examina contratações feitas pela operadora Santa Casa Saúde com empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico.

A operação resultou na prisão preventiva de seis pessoas ligadas à instituição ou aos contratos investigados: a então presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima; o diretor financeiro, Rinaldo Hakme Romano; o diretor financeiro adjunto, Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa; o diretor administrativo, Alessandro Dias Junqueira; a supervisora do Serviço de Arquivo Médico e Estatística (Same), Monique Gregório de Oliveira; e o empresário Maurício Aparecido Benites, ligado à prestação de serviços de digitalização para o hospital. Todos permanecem presos.

Também foram alvos da investigação o advogado Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva, ambos vinculados à operadora Santa Casa Saúde. As responsabilidades individuais ainda são objeto de apuração, enquanto as defesas dos investigados contestam as suspeitas apresentadas pelos investigadores.

Justiça entrega administração a gestor provisório

O avanço da crise administrativa e das investigações culminou no afastamento judicial da diretoria da entidade mantenedora. A Justiça designou Luiz Alberto Kanamura para assumir a gestão provisória da Santa Casa pelo período de 180 dias.

Embora passe a comandar administrativamente o hospital, Kanamura não assumiu formalmente a presidência da instituição. Sua função é a de superintendente, com poderes definidos judicialmente para conduzir a gestão durante o período de intervenção.

A decisão também impediu a posse de Heitor Rodrigues Freire na presidência da Santa Casa, que estava programada para segunda-feira (28).

Entre as atribuições concedidas ao administrador provisório estão a reorganização de contratos, a negociação com fornecedores e a adoção de medidas consideradas urgentes para garantir o funcionamento da instituição.

O controle judicial não se limita à nomeação. Kanamura terá de apresentar relatórios mensais ao Judiciário sobre as condições administrativas, financeiras e operacionais encontradas no hospital, criando uma rotina de prestação de informações durante os seis meses de gestão provisória.

É nesse novo cenário que a Sesau pretende ampliar o acompanhamento do dinheiro público destinado à Santa Casa.

Município procura Ministério da Saúde

Durante a prestação de contas na Câmara, Vilela relatou que esteve em Brasília acompanhado da prefeita Adriane Lopes (PP) e manteve contato com representantes do Departamento de Regulação, Avaliação e Controle (Derac), vinculado ao Ministério da Saúde.

Segundo o secretário, um documento relacionado à situação da Santa Casa foi protocolado durante a viagem. Ele também procurou o Conasems na tentativa de obter apoio para o acompanhamento das contas do hospital.

A articulação poderá levar técnicos federais a Campo Grande para colaborar com a fiscalização. Por enquanto, entretanto, a participação da União permanece no campo das tratativas: Vilela deixou claro que o Ministério da Saúde ainda não confirmou a realização da auditoria nem estabeleceu uma data para eventual deslocamento de uma equipe à capital.

A Sesau também informou à Câmara que a auditoria especial nº 653, referente à Associação Beneficente Santa Casa, permanece entre os procedimentos de apuração em andamento.

Comissão conjunta é uma das possibilidades

Além da eventual participação de técnicos federais, Vilela mencionou a possibilidade de criação de uma comissão para acompanhar o custeio dos serviços da Santa Casa.

A estrutura reuniria representantes do município, do Estado e da própria instituição. A proposta, no entanto, ainda não foi formalizada. O secretário não anunciou a constituição do grupo nem detalhou suas atribuições ou de que maneira ele se relacionaria com os instrumentos de controle e fiscalização que já estão em funcionamento.

A perspectiva da Sesau é aproveitar a administração provisória para aumentar o acesso às informações financeiras e acompanhar de maneira mais próxima o destino dos recursos públicos repassados ao hospital.

A mudança de gestão, portanto, não encerra as discussões sobre o financiamento da Santa Casa. Ao contrário, desloca parte do debate: além da necessidade imediata de manter serviços, comprar insumos e garantir atendimento, município, Estado, Ministério Público e Judiciário passam a lidar com a tarefa de dimensionar os custos da instituição e estabelecer mecanismos mais efetivos de acompanhamento das despesas.

R$ 4 milhões ainda aguardam liberação

Enquanto avançam as discussões sobre fiscalização e reorganização administrativa, permanece pendente o aporte emergencial de R$ 4 milhões anunciado no início de setembro para aquisição de insumos hospitalares.

Vilela voltou a abordar o repasse durante a apresentação na Câmara e afirmou acreditar que os recursos estarão disponíveis até sexta-feira (2). A divisão acertada prevê R$ 1 milhão proveniente da Prefeitura de Campo Grande e R$ 3 milhões do Governo do Estado.

Antes da liberação esperada para o fim da semana, a previsão é que ocorra a primeira reunião entre a administração municipal, Kanamura e o Ministério Público. O encontro deverá servir para alinhar os próximos passos da nova gestão e discutir os encaminhamentos relacionados à situação financeira e administrativa da Santa Casa.

Com a antiga diretoria afastada, uma investigação criminal em andamento, a administração submetida temporariamente a um gestor indicado pela Justiça e diferentes esferas do poder público envolvidas no financiamento do hospital, a fiscalização das contas passa a ocupar posição central na tentativa de reorganização da instituição.

O eventual apoio do Ministério da Saúde acrescentaria uma instância federal a esse processo. Até que haja confirmação, porém, a iniciativa permanece como uma solicitação da administração municipal, enquanto a gestão provisória inicia o trabalho de levantar a situação financeira, administrativa e operacional da Santa Casa.

 

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