A campanha começou há 15 dias e a primeira sabatina já aconteceu. E agora, qual caminho será trilhado por cada um dos Candidatos?

Por Edson Panes de Oliveira Filho

Quinze dias de campanha e o primeiro teste sem ilha de edição já passou. De 24 a 29 de agosto, o Jornal Nacional sabatinou, ao vivo e por cerca de 40 minutos, cada um dos seis mais bem colocados na pesquisa Genial/Quaest de 14/8: Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury, nesta ordem, por sorteio. É importante registrar que Marçal não entrou na rodada, por estar com seu registro sub judice. Quem ocupou a sexta cadeira foi Cury.

Para ler a semana sem achismo, o termômetro vem da pesquisa Nexus/BTG (TSE BR-08900/2026), que foi a  campo de 28 a 30/8, com 2.005 entrevistados e margem de erro de 2 pontos percentuais, coletada durante as entrevistas. E ela conta uma história dura: os dois líderes estão consolidados e travados (rejeição perto de 50%, teto curto), e quem tem espaço para crescer é exatamente quem foi mal na TV.

Os âncoras: No 1º turno, Lula 39, Flávio 33, Cury 11, Caiado 5-6, Renan 3, Zema 1-2. Já no 2º turno Lula 46 x Flávio 45; Lula 45 x Caiado 44; Lula 46 x Zema 41; Lula 47 x Renan 38. A Rejeição se aprsenta com Flávio 50, Lula 49, Marçal 47, Zema 41, Renan 40, Caiado 37. Tendo como informação primordial o Teto (“votaria, mas também em outro”), Caiado 32, Zema 30, Marçal 29, Renan 22, Flávio 20, Lula 14. A sabatina foi o teste que separa produto de embalagem. Então, vejamos o desempenho de cada um.

Romeu Zema (Novo). Abriu a série e saiu machucado: divagou na dívida de Minas, foi rebatido com números, defendeu vacina como “escolha individual”, relativizou o 8 de Janeiro e escorregou ao falar de mulheres. O gestor eficiente foi desmentido pelo próprio improviso e ainda entregou munição pronta (privatizar Petrobras). Está em 1%, com 26% de desconhecimento. O movimento: escolher duas bandeiras vendáveis (gastos, segurança), aposentar as tóxicas que só geram rejeição, blindar o flanco feminino e parar de jogar sem preparo factual no formato que não edita. O jogo dele é ocupar o nicho liberal-raiz, não disputar o centro no ao vivo.

Ronaldo Caiado (PSD). O paradoxo da rodada: o melhor case, o pior mensageiro. Tem o maior teto (32%), a menor rejeição (37%) e empata com Lula no 2º turno (45 x 44), mas entregou uma sabatina grosseira (“não estamos em uma banca examinadora”), com cerca de 40 interrupções, evasivas e uma afirmação falsa (Lula “anistiado”). Pior: defendeu anistia a Bolsonaro, contaminando o discurso de alternativa com pauta bolsonarista. Virou chacota, com 25% ainda sem conhecê-lo. O movimento: reposicionar tom com urgência do coronel que interroga ao gestor que entrega, media training pesado, roteiro em cima de duas provas concretas e largar a anistia. Enquanto for pouco conhecido, precisa de repetição controlada, não de improviso. O teto de 32% é ouro que ele está queimando.

Renan Santos (Missão). A melhor comunicação, o pior produto. Foi o mais à vontade na TV (nota 2,6, à frente de Zema e Caiado), mas o conteúdo assustou: arma nuclear e “banho de sangue”. Os números o prendem ao nicho e 35% não o conhecem, 3% de intenção, o pior 2º turno (47 x 38), passivo de misoginia. O movimento: aceitar que 2026 não é a Presidência, é a construção de marca e partido. Usar a boa oratória para consolidar e monetizar um núcleo fiel, moderar o indefensável em massa (nuclear e “banho de sangue” fecham o centro e as mulheres) e sair da eleição maior do que entrou.

Lula (PT). Sobreviveu ao pior enquadramento possível: metade da entrevista sobre corrupção (Lulinha/Marcola, INSS, Master). Manteve a calma, controlou a narrativa e colheu elogios por vigor cognitivo (mata o etarismo) e o fato, sublinhado no colunismo, de ser o único a quem não se perguntou sobre democracia. Lidera o 1º turno (39%) e está em todos os cenários de 2º. Mas segue travado: rejeição 49%, teto de 14%. O movimento: virar a chave da defesa para a agenda propositiva, levar de forma controlada o enquadramento “sabatina-interrogatório” como quem foi tratado de réu e tem o que mostrar, blindar corrupção com transparência e mudar o terreno para custo de vida e entregas. A eleição dele é de 2º turno; o jogo é consolidar e mobilizar, não conquistar.

Flávio Bolsonaro (PL). Venceu na bolha, tropeçou fora dela. Cercado pelo Master e por Vorcaro, protagonizou o pior momento da semana, negou e depois confirmou ter pedido dinheiro para o filme sobre o pai, não explicou os US$ 61 milhões no Texas e citou Lula cerca de 17 vezes para escapar. Nas redes, o campo pró venceu em volume; retirados os hiperativos, virou empate. Empata com Lula no 2º turno (45 x 46), mas carrega a maior rejeição do país (50%) e teto de 20%. O movimento: parar de usar Lula como muleta (não amplia), enfrentar o Master com uma versão única e documentada e migrar da herança para a pauta econômica de classe média. Estruturalmente, depende de polarizar para garantir o 2º turno e de consolidar a direita antes que Caiado ou a terceira via o ultrapassem.

Augusto Cury (Avante). O dado que quase ninguém está olhando: 11% de terceira via, num tom de esperança que destoa do ambiente de raiva. Mas a sabatina expôs o risco insegurança, excesso de autoajuda e o segundo maior índice de alegações falsas da rodada (dívida “de R$ 50 mil por criança”, bets, neurodivergência). Sob escrutínio, a marca “coach” desmonta. O movimento: profissionalizar o conteúdo (cada dado errado corrói a autoridade de sábio), converter emoção em proposta verificável e ocupar o vácuo de terceira via que Caiado (autoritário) e Zema (impopular) deixaram aberto. É quem mais tem a ganhar e a perder na reta final.

E o Marçal? Fora do circuito. Enquanto os seis disputavam credibilidade no horário nobre, ele disputava sobrevivência jurídica. Resta-lhe a economia da atenção e a judicialização como narrativa. Mas ficar de fora do debate “sério” reforça o teto baixo (3%, rejeição 47%). Atenção não é legitimidade, e a reta final cobra as duas.

A leitura que fica. A semana passada confirmou a pesquisa e inverteu as expectativas de imagem. Quem tinha fama de gestor (Caiado, Zema) se queimou no improviso; quem tinha comunicação (Renan) travou no conteúdo; quem lidera (Lula) aguentou o pior enquadramento; quem herda (Flávio) escancarou a dependência da bolha; e a terceira via (Cury) provou que existe e que é frágil.

O topo está consolidado, mas a eleição se decide no 2º turno, onde Lula empata tecnicamente com Flávio e com Caiado. O espaço de crescimento está em quem foi mal na TV e converter percepção em intenção virou, para o pelotão de trás, questão de sobrevivência.

Fica ainda o recado de método: a TV ao vivo é implacável com a campanha digital-first. Quem vive de conteúdo editado precisa aprender a jogar onde não há corte na ilha.

Primeiro capítulo encerrado. Cada campanha entregou, sem retoque, a matéria-prima das próximas semanas. Quem lê a sabatina ao lado da pesquisa já sabe quem terá que corrigir a rota, quem vai consolidar e quem está apenas jogando para 2030.

 

Sobre o autor

Edson Panes de Oliveira Filho é advogado e estrategista político, especialista em Direito Eleitoral, com MBA em Direito Empresarial, MBA em Gestão de Pessoas e MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político. É proprietário da CRIA Marketing Digital e Político e cofundador da Alcateia Política.

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