Crise respiratória pressiona saúde em Campo Grande
Campo Grande entrou no período mais crítico para doenças respiratórias sob forte pressão sobre sua rede pública de saúde. O aumento expressivo de atendimentos, especialmente de casos graves, tem evidenciado uma combinação de fatores que vai da escassez de materiais básicos à fragilidade na gestão das unidades de urgência e emergência.
Dados recentes indicam mais de 400 registros de síndrome respiratória grave nas unidades da Capital, cenário que coincide com a chegada das temperaturas mais baixas — condição que favorece a circulação de vírus e eleva a demanda por atendimento, sobretudo entre crianças. No entanto, o crescimento sazonal dos casos tem escancarado problemas que profissionais e usuários afirmam não serem novos.
Um episódio ocorrido no último domingo (12) sintetiza o ambiente de tensão nas unidades. Uma médica que atuava em plantão na UPA Coronel Antonino registrou boletim de ocorrência por transfobia após ser retirada do local por uma superior hierárquica. Segundo relato, o conflito ocorreu quando a profissional buscava respaldo diante da ausência de condições adequadas de trabalho, incluindo a falta de equipamentos essenciais para atendimento de pacientes em estado grave. A unidade, conforme reportagem do Campo Grande News, operava com superlotação e sem itens básicos, como suporte adequado de ventilação mecânica.
O caso se soma a uma sequência de denúncias envolvendo a qualidade do atendimento na rede municipal. Nas últimas semanas, relatos de familiares apontam falhas no diagnóstico e condução de casos pediátricos. Em pelo menos duas situações recentes, crianças morreram após passarem por múltiplos atendimentos em unidades de pronto atendimento sem identificação precisa do quadro clínico.
Enquanto a demanda cresce, críticas à condução da política de saúde se intensificam. A gestão da prefeita Adriane Lopes (PP) tem sido alvo de questionamentos por parte de entidades médicas e de controle social. O Conselho Municipal de Saúde e o Sindicato dos Médicos se posicionaram contra a proposta de transferência da administração das UPAs para Organizações Sociais (OSs), defendida pela Secretaria Municipal de Saúde.
Em nota, o sindicato afirma que a medida não resolveria o principal gargalo do sistema. “Entregar a gestão para OSs não cria novos leitos nem corrige a falta de insumos. O problema identificado é de planejamento e execução, mesmo com recursos disponíveis”, sustenta a entidade.
O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, tem defendido publicamente o modelo de gestão compartilhada como alternativa para modernizar o atendimento. A proposta, no entanto, enfrenta resistência não apenas institucional, mas também entre profissionais da rede, que associam a iniciativa à terceirização de serviços essenciais em meio a um cenário já marcado por insuficiência estrutural.
Paralelamente ao embate administrativo, a Secretaria Municipal de Saúde informou que abriu apuração sobre o caso de possível discriminação registrado na UPA e reconheceu o aumento da procura por atendimento em razão da sazonalidade das doenças respiratórias. A pasta afirma que não tolera práticas discriminatórias e que medidas estão em andamento.
No plano epidemiológico, autoridades estaduais reforçam que o período exige atenção redobrada, especialmente com o público infantil. A Secretaria de Estado de Saúde alerta que bebês e crianças pequenas são mais suscetíveis a complicações, devido ao sistema imunológico ainda em desenvolvimento. Medidas como vacinação, higiene frequente das mãos, ventilação dos ambientes e evitar aglomerações são apontadas como fundamentais para conter o avanço dos casos.
Especialistas também recomendam atenção a sinais de agravamento, como febre persistente, chiado no peito e tosse intensa. Em situações leves, a orientação é procurar unidades básicas de saúde, reservando as UPAs para quadros de maior gravidade — uma estratégia que pode aliviar a sobrecarga nas emergências.
Apesar das orientações, o cenário em Campo Grande revela um descompasso entre a demanda crescente e a capacidade de resposta do sistema. Em meio ao avanço das doenças respiratórias, a combinação de estrutura limitada, disputas sobre gestão e relatos de falhas no atendimento mantém a saúde pública da Capital sob pressão contínua.
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