Diante do caos no setor, Adriane quer privatizar saúde em Campo Grande
A proposta da prefeitura de Campo Grande de transferir a gestão de unidades públicas de saúde para organizações sociais (OSs) abriu uma frente de tensão entre Executivo, Legislativo e entidades da área. Ainda em fase inicial, o projeto já enfrenta resistência formal do Conselho Municipal de Saúde (CMS), críticas de vereadores e oposição do sindicato médico, sinalizando um debate prolongado antes de qualquer implementação.
A iniciativa da gestão da prefeita Adriane Lopes (PP) prevê, em um primeiro momento, a adoção do modelo em duas unidades estratégicas: os Centros Regionais de Saúde dos bairros Tiradentes e Aero Rancho. A proposta foi apresentada a parlamentares e ao conselho em reuniões realizadas na quarta-feira (25), quando técnicos da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) detalharam os fundamentos e os resultados alegados em experiências semelhantes no país.
Apesar do esforço do Executivo em enquadrar a medida como uma “modernização” da gestão, o projeto esbarra no caráter deliberativo do CMS, que já possui histórico de posicionamento contrário à adoção desse tipo de modelo desde 2016. A rejeição do conselho não apenas impõe um obstáculo político, mas também pode gerar consequências práticas, como entraves na aprovação de contas e eventual judicialização.
No Legislativo, a estratégia adotada até o momento é ampliar o debate. A Comissão de Saúde da Câmara pretende convocar o conselho para detalhar os motivos da rejeição e, posteriormente, realizar audiência pública. A sinalização é clara: sem respaldo do CMS, parte dos vereadores tende a se posicionar contra o avanço da proposta.
Entre os críticos mais contundentes, parlamentares da oposição associam a proposta a um padrão recorrente de privatização de serviços públicos. Segundo esse entendimento, a deterioração gradual da qualidade do atendimento abriria espaço para a justificativa de transferência à iniciativa privada — uma narrativa rejeitada pelo Executivo, mas que encontra eco entre setores da sociedade civil.
Outro ponto de contestação está na eficácia do modelo. Representantes do CMS e de conselhos regionais argumentam que a terceirização não enfrenta os problemas estruturais da rede, como falta de insumos, exames e organização administrativa. A crítica central é que a mudança de gestão não resolve gargalos históricos do sistema público local.
Na mesma linha, o Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul sustenta que o principal entrave da saúde municipal está na escassez de leitos hospitalares, o que sobrecarrega unidades de urgência e emergência. Para a entidade, a proposta não ataca esse déficit e pode apenas “maquiar” falhas de gestão já identificadas.
Do lado do Executivo, o discurso enfatiza eficiência e melhoria no atendimento. O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, afirma que a adoção das OSs não deve ser interpretada como terceirização convencional, mas como uma alternativa de gestão com վերահ presença de controle e fiscalização. Segundo ele, a proposta inclui um projeto piloto de 12 meses e pode gerar economia de até 30%, além de ganhos qualitativos.
Ainda assim, a reação contrária já era prevista pela administração, que tenta minimizar o impacto político da resistência. A promessa de manutenção dos empregos, com realocação de profissionais, integra a estratégia para reduzir a oposição interna.
Com posições polarizadas e riscos institucionais envolvidos, o debate sobre a gestão da saúde em Campo Grande tende a ultrapassar o campo técnico e ganhar contornos políticos mais amplos — onde eficiência administrativa, controle social e o próprio modelo de Estado entram em disputa.
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