Mães atípicas protestam no sábado contra descumprimento de acordo com Adriane
Menos de um mês após a Prefeitura de Campo Grande anunciar a criação do Núcleo de Apoio às Mães Atípicas (Nama) como uma resposta às demandas históricas de famílias que convivem com filhos portadores de deficiência e condições que exigem cuidados permanentes, o projeto já enfrenta críticas e cobranças. Mães atípicas denunciam que nenhuma das entregas prometidas foi realizada até o momento e afirmam que a situação se agravou diante da falta de insumos básicos e da redução das alternativas de atendimento disponíveis na rede municipal.
A insatisfação culminou na convocação de um protesto em frente à Prefeitura de Campo Grande, marcado para as 15h deste sábado (30). O ato pretende chamar atenção para a ausência de respostas efetivas do poder público às demandas da maternidade atípica, além de cobrar o cumprimento dos compromissos assumidos pela gestão da prefeita Adriane Lopes (PP).
Anunciado com ampla divulgação no início de maio, o Nama foi apresentado pela administração municipal como um espaço destinado a oferecer mais agilidade, organização e acompanhamento contínuo às famílias atendidas. A proposta previa centralizar atendimentos e facilitar o acesso a itens e serviços essenciais para crianças que dependem de cuidados especializados.
Na prática, segundo as mães, o projeto ainda não entregou os resultados prometidos.
“O que foi reafirmado várias vezes durante esse mês é de que não passaria de maio sem fazer a primeira entrega”, afirma a presidente da Comissão de Mães Atípicas, Lilidaiane Ricaldi. “Em abril, quando iniciaram os cadastros, nos deram o prazo de início de maio para começar as entregas. Quando iniciou maio, mudaram o prazo para o final do mês. Hoje, dia 28, não recebemos nem um grão de nada pelo Nama.”
A frustração relatada pelas famílias não é nova. Segundo o movimento, as dificuldades de acesso a insumos e atendimentos especializados se acumulam há anos e permanecem sem solução mesmo após sucessivas mudanças na estrutura administrativa da Secretaria Municipal de Saúde.
De acordo com Lilidaiane, a escassez atinge desde materiais de baixo custo até equipamentos indispensáveis para a sobrevivência de crianças com quadros clínicos complexos.
“Nós estamos sem receber os materiais desde os mais baratos até os de alto custo. Não tem frasco para as mães da alimentação dos filhos que usam gastrostomia, não tem equipos, não tem sonda para aqueles que precisam retirar a urina da bexiga, ou sonda para aquela mãe que precisa aspirar a traqueostomia do filho”, relata.
Os itens mencionados fazem parte da rotina de centenas de famílias que dependem integralmente do fornecimento público para garantir cuidados básicos de saúde. Em muitos casos, a ausência desses materiais compromete procedimentos diários indispensáveis à alimentação, respiração e higiene dos pacientes.
A situação ganha contornos ainda mais graves porque, segundo as mães, o Centro Especializado Municipal (CEM), que anteriormente representava uma alternativa de atendimento e encaminhamento dessas demandas, já não consegue suprir as necessidades das famílias. Com isso, o Nama passou a concentrar as expectativas de solução para um problema que se arrasta há anos na rede pública municipal.
O movimento das mães atípicas argumenta que suas reivindicações estão longe de representar pedidos extraordinários. O grupo afirma buscar apenas o acesso regular a direitos básicos e garantias mínimas de dignidade para crianças e adolescentes que dependem de cuidados permanentes.
Entre as principais demandas estão o fornecimento regular de leite especial, alimentação enteral, fraldas, sondas, equipos, frascos para nutrição e demais insumos indispensáveis ao tratamento domiciliar de pacientes com deficiência ou doenças crônicas.
Além das questões relacionadas aos materiais, as mães também reivindicam políticas públicas voltadas ao acolhimento e suporte das cuidadoras, que frequentemente precisam abandonar empregos, interromper carreiras e reorganizar completamente suas rotinas para atender às necessidades dos filhos.
Nos últimos anos, o conceito de maternidade atípica passou a ganhar maior visibilidade no debate público brasileiro. O termo é utilizado para designar mães de crianças com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento, doenças raras ou outras condições que exigem cuidados intensivos e permanentes.
Pesquisas e estudos sobre o tema apontam que essas mulheres frequentemente enfrentam sobrecarga física, emocional e financeira, além de dificuldades de acesso a serviços públicos especializados. A ausência de políticas permanentes de apoio e acolhimento figura entre as principais reivindicações dos movimentos organizados em todo o país.
É nesse contexto que as organizadoras do protesto reforçam o caráter político da mobilização. Para elas, a luta por atendimento adequado não se restringe ao acesso a serviços de saúde, mas envolve também o reconhecimento social das dificuldades enfrentadas diariamente por essas famílias.
Ao convocar a manifestação deste sábado, o grupo destaca que “ser mãe também é um ato político”, especialmente quando o exercício da maternidade exige enfrentar obstáculos burocráticos e reivindicar direitos básicos para garantir a sobrevivência dos filhos.
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