Operação revela suspeitas de contratos irregulares, pagamentos sem comprovação e movimentações financeiras atípicas na Santa Casa de CG
Uma investigação conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) colocou a principal instituição hospitalar do estado no centro de um amplo inquérito sobre supostas irregularidades administrativas e financeiras.
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As apurações, que resultaram na deflagração da Operação Antidotum, descrevem um conjunto de indícios que vai desde contratações consideradas direcionadas até pagamentos milionários sem comprovação integral da execução dos serviços, além de movimentações financeiras que despertaram a atenção dos investigadores.
Os elementos reunidos pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) sustentam duas linhas principais de investigação. A primeira concentra-se em contratos firmados pela Santa Casa de Campo Grande, especialmente com uma empresa responsável pela digitalização de documentos hospitalares. A segunda, que será detalhada na sequência desta reportagem, envolve a operadora Santa Casa Saúde e empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte.
No núcleo das investigações está Alir Terra Lima, então presidente da instituição. Segundo o Ministério Público, ela foi formalmente comunicada sobre inconsistências verificadas em um dos contratos investigados e, mesmo após recomendação do Conselho Fiscal para suspender sua execução, decidiu mantê-lo em vigor. A defesa nega qualquer irregularidade, afirma que a dirigente está “indignada com as acusações e com a prisão” e sustenta que os fatos serão esclarecidos ao longo do processo.
Contratação sob suspeita
Um dos principais focos da investigação envolve a Redvalue Tecnologia, empresa contratada para digitalizar prontuários médicos e outros documentos administrativos da Santa Casa.
De acordo com o MP, as irregularidades teriam começado antes mesmo da assinatura do contrato. Os investigadores afirmam que o procedimento de contratação foi iniciado sem estudos de viabilidade técnica, análise financeira ou planejamento detalhado da execução dos serviços. Além disso, as propostas utilizadas para formar o preço de referência teriam sido apresentadas por empresas vinculadas ao mesmo grupo econômico relacionado ao empresário Maurício Aparecido Benites, apontado pela investigação como figura central do núcleo empresarial ligado à Redvalue.
Outro episódio considerado relevante pelos investigadores ocorreu antes da formalização do contrato. Conforme a apuração, Maurício encaminhou ao então diretor administrativo-financeiro da Santa Casa, Rinaldo Hakme Romano – responsável pela gestão contratual – uma versão editável da minuta que posteriormente seria assinada entre o hospital e a empresa.
Na avaliação do Ministério Público, a troca de documentos representa um dos elementos que reforçam a hipótese de direcionamento da contratação, por indicar participação antecipada da empresa privada na elaboração do instrumento contratual.
Produção registrada não acompanhou valores pagos
As suspeitas se intensificaram quando os órgãos de controle passaram a confrontar os serviços efetivamente registrados com os valores desembolsados pelo hospital.
Segundo os cálculos apresentados pelo Ministério Público, entre janeiro e 16 de abril de 2025 foram contabilizadas 1.772.198 páginas digitalizadas. Considerando os preços estabelecidos contratualmente, essa produção corresponderia a R$ 88.609,90.
Apesar disso, no mesmo período a Redvalue já havia recebido R$ 750 mil.
A diferença apurada pelo Gecoc alcança R$ 661.390,10, valor que, conforme a investigação, não encontrava respaldo na quantidade de serviços comprovadamente executados naquele intervalo analisado.
As inconsistências também chamaram a atenção do Conselho Fiscal da Santa Casa. Em agosto de 2025, o órgão formalizou relatório apontando divergências entre os pagamentos realizados e a documentação disponível, recomendando a apuração das responsabilidades e a suspensão imediata do contrato.
Segundo o Ministério Público, Alir Terra Lima foi oficialmente informada dessas conclusões. Ainda assim, conforme descrevem os investigadores, o contrato permaneceu em vigor.
Áudio sugere preocupação com a forma de efetuar pagamentos
Além da documentação administrativa, a investigação incorporou conversas obtidas durante a apuração.
Em um dos áudios, gravado em abril de 2025, o então vice-presidente da Santa Casa, Jary Carvalho de Castro, conversa com Maurício Benites sobre um pagamento de aproximadamente R$ 1,8 milhão.
De acordo com a interpretação apresentada pelo Ministério Público, Jary afirma que a quantia não poderia ser quitada integralmente em razão da fiscalização existente sobre a instituição e informa que trataria com Rinaldo Romano da divisão dos repasses em parcelas.
Para os investigadores, o diálogo constitui mais um elemento que, somado aos demais indícios reunidos, integra o conjunto probatório utilizado para fundamentar as medidas cautelares deferidas pela Justiça.
Fluxo financeiro levou investigadores a identificar padrão de saques
O rastreamento do caminho percorrido pelos recursos financeiros revelou outro aspecto considerado relevante pelo Gecoc.
Segundo a investigação, valores inicialmente recebidos por empresas ligadas ao núcleo empresarial da Redvalue passavam por sucessivas transferências entre pessoas físicas e jurídicas antes de serem convertidos em saques em espécie.
O que chamou a atenção dos investigadores foi a repetição de retiradas praticamente idênticas. Em diversos casos, os valores sacados correspondiam exatamente a R$ 49.999 ou cifras muito próximas desse montante.
Na avaliação do Ministério Público, a repetição não ocorreu por acaso. A hipótese levantada pelos investigadores é a de que o fracionamento buscaria dificultar o rastreamento da movimentação financeira e reduzir a visibilidade das operações perante os mecanismos de controle do sistema financeiro.
O valor utilizado também despertou atenção por ficar apenas R$ 1 abaixo do patamar de R$ 50 mil previsto para comunicação de determinadas operações em espécie. O próprio MP, entretanto, ressalta que movimentações fracionadas inferiores a esse limite igualmente podem ser consideradas suspeitas e submetidas ao monitoramento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Ao analisar o pedido de medidas cautelares, a Justiça adotou uma abordagem mais cautelosa. Em vez de atribuir significado isolado aos saques, considerou a repetição sistemática das operações imediatamente abaixo de R$ 50 mil como mais um elemento inserido no conjunto de indícios apresentados pela investigação.
Os levantamentos do Gecoc apontam ainda que diferentes pessoas vinculadas ao grupo empresarial investigado realizaram essas retiradas em espécie. Entre elas estão servidores municipais mencionados na apuração.
Em um dos casos destacados pelo Ministério Público, um dos investigados aparece associado a saques que totalizam R$ 761.999, grande parte deles realizada em valores de R$ 49 mil ou R$ 49.999. Segundo a análise preliminar dos investigadores, não foram localizados contratos, notas fiscais ou justificativas econômicas capazes de explicar a origem e a finalidade dessas movimentações financeiras.
A partir desse conjunto de elementos – contratação considerada irregular, pagamentos superiores aos serviços comprovados, recomendações ignoradas pelos órgãos de controle interno e movimentações financeiras classificadas como atípicas – o Ministério Público sustentou perante a Justiça a existência de indícios suficientes para a adoção das primeiras medidas cautelares contra integrantes da administração da Santa Casa. A segunda frente da investigação, envolvendo a operadora Santa Casa Saúde, empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte e repasses que superaram R$ 9,6 milhões em um único ano, será abordada na sequência desta reportagem.
Operadora Santa Casa Saúde entra na mira por repasses milionários
Se a primeira frente da investigação se concentra em contratos firmados diretamente pela Santa Casa, a segunda desloca o foco para a operadora Santa Casa Saúde e para a relação mantida entre a então presidente da instituição, Alir Terra Lima, e o advogado Paulo da Cruz Duarte.
Segundo os documentos reunidos pelo Ministério Público, ambos atuavam profissionalmente antes de Alir assumir a presidência do hospital. A investigação afirma que os dois compartilhavam escritório, trabalhavam em causas comuns e utilizavam identidade profissional conjunta. Entre os elementos citados está um recibo de honorários de 2019 assinado por ambos.
Após a posse de Alir na presidência da Santa Casa, empresas controladas ou representadas por Paulo Duarte passaram a prestar uma série de serviços para a operadora. As atividades abrangiam assessoria jurídica, cobrança administrativa, comercialização de planos de saúde, administração de beneficiários, telemedicina, publicidade e serviços relacionados à implantação da filial de Dourados.
De acordo com o MP, somente em 2025 essas empresas receberam R$ 9.617.738,49. No mesmo período, a Santa Casa Saúde encerrou o exercício com resultado negativo de R$ 3.555.901,12.
A investigação também levanta a hipótese de conflito de interesses. Conforme o Ministério Público, Paulo Duarte exercia simultaneamente a advocacia em favor da Santa Casa e da Santa Casa Saúde enquanto empresas sob seu controle ou representação eram contratadas pela própria operadora.
Contratos sem documentação completa
Entre os pagamentos analisados, um dos principais envolve a Duarte Soluções Creditícias Ltda.
Os investigadores apontam que, entre março e dezembro de 2025, a empresa recebeu dez pagamentos mensais de R$ 557 mil, totalizando R$ 5,57 milhões. Os recursos estariam vinculados aos serviços prestados para a implantação da filial da Santa Casa Saúde em Dourados.
Segundo o Ministério Público, entretanto, durante a apuração não foram apresentados documentos considerados essenciais para justificar os repasses, como o contrato correspondente, os critérios utilizados para formação dos preços e comprovação da efetiva execução dos serviços.
Outro aspecto destacado pela investigação é a cronologia dos fatos. Os pagamentos tiveram início em março de 2025, enquanto a formalização societária da filial ocorreu apenas no final daquele ano, circunstância considerada relevante pelos investigadores.
Conselho Fiscal relata dificuldades para acessar informações
As apurações também descrevem uma disputa em torno do acesso à documentação da operadora.
Enquanto buscava verificar a regularidade das contratações e dos pagamentos, o Conselho Fiscal solicitou contratos, propostas comerciais, notas fiscais, relatórios técnicos, memórias de cálculo e outros documentos que permitissem conferir a legalidade das despesas.
Segundo o Ministério Público, parte desse material nunca foi entregue e outra parcela foi apresentada de maneira fragmentada, dificultando a análise dos atos administrativos.
A investigação atribui à então administradora e diretora executiva da Santa Casa Saúde, Beatriz Lemes da Silva, o acesso à documentação solicitada. Ainda conforme o MP, mesmo após sucessivos ofícios e notificações, apenas parte dos documentos teria sido disponibilizada.
O Gecoc afirma que comportamento semelhante foi identificado em relação à própria Alir Terra Lima e sustenta que o Conselho Fiscal, a Controladoria-Geral do Estado e o Poder Judiciário enfrentaram obstáculos para obter acesso integral às informações.
Em outro procedimento judicial citado na investigação, um magistrado chegou a registrar seu “espanto” diante da resistência da instituição em apresentar a documentação contábil solicitada.
Para a Justiça, a retenção e o fornecimento incompleto dos documentos também integraram o conjunto de elementos considerados na autorização das medidas cautelares.
Mudanças de endereço chamam a atenção dos investigadores
Outro ponto explorado pelo Ministério Público envolve alterações cadastrais promovidas por empresas ligadas a Paulo Duarte.
Segundo o Gecoc, entre o final de 2025 e o início de 2026 sete empresas passaram a registrar como sede um imóvel localizado na Avenida Mato Grosso, em Campo Grande.
A investigação afirma que as mudanças ocorreram depois que uma ação judicial tornou públicos vínculos dessas empresas com outro imóvel relacionado a Alir Terra Lima.
Embora o endereço tenha passado a constar oficialmente como sede das empresas, levantamento realizado durante a apuração indicou ausência de consumo de água entre dezembro de 2025 e maio de 2026.
Na avaliação do Ministério Público, esse dado reforça a hipótese de que a alteração tenha ocorrido apenas formalmente.
Compra de imóvel em dinheiro passa a integrar apuração patrimonial
A evolução patrimonial dos investigados também passou a ser analisada.
Entre os fatos mencionados está a aquisição, por Alir Terra Lima, de um imóvel residencial em Campo Grande, em 24 de janeiro de 2025.
A escritura registra que a casa, avaliada em R$ 400 mil, foi quitada integralmente em espécie, “no ato, em moeda corrente nacional”.
O Ministério Público incorporou a compra ao cruzamento de informações patrimoniais realizado durante a investigação. O próprio procedimento, entretanto, ressalta que não há comprovação de que os recursos utilizados para a aquisição tenham origem na Santa Casa. A apuração busca justamente identificar a procedência do dinheiro empregado na operação.
Áudio indica preocupação com fiscalização patrimonial
Outro elemento reunido pelos investigadores é um áudio atribuído a Alessandro Dias Junqueira.
Na conversa, gravada em fevereiro de 2026, ele afirma que desistiria naquele momento de comprar uma caminhonete Fiat Rampage porque o Conselho Fiscal estaria acompanhando a evolução patrimonial dos dirigentes da instituição.
Durante o diálogo, Alessandro comenta que a troca de veículo realizada por Rinaldo Hakme Romano havia despertado a atenção dos fiscais e conclui que também não faria a aquisição pretendida naquele momento.
Para o Ministério Público, o conteúdo demonstra que havia conhecimento sobre o monitoramento patrimonial realizado pelos órgãos internos de fiscalização.
Assim como ocorre em relação à compra do imóvel, o áudio não comprova que os recursos destinados à aquisição do veículo tivessem origem ilícita.
Quem são os investigados
Na primeira frente da investigação, o Ministério Público aponta Maurício Aparecido Benites como controlador do núcleo empresarial ligado às empresas Redvalue, ExBe e Infortech.
Rinaldo Hakme Romano aparece como diretor administrativo-financeiro da Santa Casa e gestor do contrato firmado com a Redvalue. Alessandro Dias Junqueira exercia a função de gerente administrativo e fiscal do contrato.
Também são citados Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, apontado como participante da formalização contratual e da programação dos pagamentos, e Monique Gregório de Oliveira, ligada ao setor responsável pelo acompanhamento da execução dos serviços.
Na investigação envolvendo a Santa Casa Saúde, Paulo da Cruz Duarte figura como responsável pelas empresas contratadas pela operadora, enquanto Beatriz Lemes da Silva é relacionada aos procedimentos administrativos, aos pagamentos e ao gerenciamento da documentação contratual.
Prisões, afastamentos e buscas
Com base no conjunto de elementos apresentados pelo Ministério Público, a Justiça decretou a prisão preventiva de Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites.
O pedido de prisão contra Jary Carvalho de Castro foi rejeitado.
Já Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva foram afastados de suas funções e ficaram proibidos de acessar as dependências da Santa Casa e da Santa Casa Saúde.
As decisões também autorizaram mandados de busca e apreensão para recolhimento de documentos, computadores, aparelhos celulares e outros materiais considerados relevantes para o andamento das investigações.
O Ministério Público destaca que as suspeitas apresentadas durante a fase investigativa e os indícios reconhecidos pela Justiça para justificar as medidas cautelares não representam condenação dos investigados. O caso segue em apuração.
Santa Casa afirma que atendimento segue normal e manifesta apoio aos dirigentes
Após a deflagração da operação, a Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande informou, em nota, que seu Conselho de Administração realizou reunião extraordinária para definir medidas destinadas a garantir a continuidade da assistência prestada pelo hospital.
A instituição afirmou que os serviços permanecem funcionando normalmente e assegurou que não haverá interrupção no atendimento à população.
No comunicado, o Conselho de Administração também manifestou solidariedade aos integrantes da diretoria alcançados pelas medidas cautelares, ressaltando a dedicação e os serviços prestados por eles ao longo dos anos.
Por fim, a Santa Casa declarou confiar na atuação do Poder Judiciário e afirmou aguardar o esclarecimento dos fatos pelas autoridades competentes.
Com as duas frentes de investigação em andamento, o Ministério Público busca esclarecer se os contratos, pagamentos e movimentações financeiras identificados durante a Operação Antidotum integraram um esquema de desvios de recursos dentro da Santa Casa de Campo Grande e de sua operadora de saúde. A responsabilização dos investigados, contudo, dependerá da produção de provas ao longo da instrução processual e das decisões definitivas da Justiça.
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