Pesquisa traça perfil de 1.476 pessoas em situação de rua em Campo Grande

22 de agosto de 2026
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Campo Grande tem atualmente 1.476 pessoas em situação de rua, segundo levantamento divulgado pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul. O estudo, apresentado nesta quarta-feira (19), reúne dados obtidos tanto por meio de observação direta nas ruas quanto a partir de registros de serviços e instituições da rede de acolhimento, permitindo traçar um panorama territorial e socioeconômico dessa população na capital.

Do total identificado, 842 pessoas (57%) foram localizadas diretamente em vias públicas, enquanto 634 (43%) constavam em cadastros de equipamentos e serviços especializados de atendimento e acolhimento.

O levantamento mostra ainda que a população em situação de rua é majoritariamente masculina. Dos 1.476 registros, 1.190 correspondem a homens (80,6%), 234 a mulheres (15,9%) e 52 a crianças (3,5%). A predominância de homens permaneceu próxima de 80% tanto entre as pessoas encontradas nas ruas quanto entre aquelas registradas na rede de assistência.

Centro concentra maior número de pessoas em situação de rua

A distribuição territorial revela forte concentração em áreas específicas da cidade. A região central reúne 566 pessoas, o equivalente a 40% dos casos territorializados, configurando-se como o principal ponto de permanência dessa população.

Em seguida aparece a região do Anhanduizinho, com 363 pessoas (25,6%). Juntas, as duas regiões concentram 929 pessoas, representando 65,6% de todos os registros com localização definida.

Questionários detalham características da população

Além do mapeamento territorial, o Grupo de Trabalho Intersetorial da População em Situação de Rua (GT-PSR) entrevistou 257 pessoas, sendo 193 vivendo nas ruas e 64 acolhidas em instituições.

As respostas indicam que o perfil predominante entre as pessoas em situação de rua é formado por homens cis, pardos e com idade média de 39,6 anos. Entre a população acolhida, o levantamento aponta maior presença de mulheres cis e de estrangeiros.

Em relação à identidade de gênero, 76,3% dos entrevistados se identificaram como homens cis. Esse percentual chega a 78,8% entre quem permanece nas ruas e cai para 68,8% entre os acolhidos. Já as mulheres cis representam 21% da amostra, correspondendo a 17,6% das pessoas em situação de rua e 31,3% daquelas acolhidas.

Quanto ao perfil racial, 60,3% dos entrevistados se declararam pardos, percentual semelhante nos dois grupos analisados.

A pesquisa também identificou uma presença significativa de estrangeiros, que representam 17,1% dos entrevistados. Entre as pessoas em situação de rua, eles correspondem a 10,9%, enquanto entre os acolhidos o índice sobe para 35,9%.

Alimentação, trabalho e moradia aparecem entre as principais demandas

As necessidades apontadas variam conforme a condição dos entrevistados. Para quem permanece nas ruas, alimentação foi a demanda mais citada, mencionada por 47,7% dos participantes.

Entre as pessoas acolhidas, as prioridades mudam. Trabalho e geração de renda aparecem como principal necessidade para 73,4%, seguidos por moradia, indicada por 56,3%.

Situação de rua é recorrente para a maioria

O estudo mostra que viver nas ruas não representa um episódio isolado para grande parte da população entrevistada. 64,6% afirmaram já ter passado anteriormente por essa condição, enquanto 34,2% disseram estar enfrentando essa realidade pela primeira vez.

Os dados também evidenciam extremos no tempo de permanência. 37% estão em situação de rua há até seis meses, enquanto 32,3% permanecem nessa condição há mais de seis anos, indicando a coexistência de processos recentes e de situações prolongadas de exclusão social.

Permanência solitária não significa rompimento familiar

A maior parte dos entrevistados (73,9%) declarou permanecer sozinha nas ruas ou nos espaços onde vive atualmente. O índice é de 78,8% entre quem está em situação de rua e de 59,4% entre os acolhidos.

Apesar disso, a pesquisa ressalta que permanecer sozinho não implica necessariamente ausência de vínculos familiares. Segundo o levantamento, 61,9% mantêm contato com familiares, percentual que corresponde a 58% entre as pessoas em situação de rua e a 73,4% entre aquelas acolhidas.

Entre os entrevistados, 45,1% informaram que seus familiares vivem em Campo Grande, enquanto 26,5% têm parentes residentes em outros estados.

No grupo de pessoas acolhidas, 26,6% relataram possuir familiares vivendo no exterior, resultado associado à maior presença de estrangeiros entre os usuários dos serviços de acolhimento.

Uso de substâncias, conflitos familiares e desemprego aparecem como fatores recorrentes

Os entrevistados apontaram diferentes fatores relacionados ao ingresso e à permanência nas ruas. O uso de substâncias foi o aspecto mais frequentemente mencionado, citado por 62,3% como fator associado ao início da situação de rua e por 59,1% como elemento que contribui para sua continuidade.

Também aparecem com destaque os conflitos ou rompimentos familiares, mencionados por 35,4%, e a perda do trabalho ou da renda, indicada por 19,8% dos participantes.

Mercado formal alcança parcela mínima da população

A pesquisa evidencia um cenário de forte exclusão do mercado formal de trabalho. Apenas 2,7% dos entrevistados possuem emprego com vínculo formal.

Entre as pessoas em situação de rua, 45,6% sobrevivem por meio de atividades informais. Já entre os acolhidos, apenas 9,4% exercem trabalho informal, enquanto 73,4% declararam não exercer qualquer atividade laboral.

Nesse contexto, a catação e reciclagem de materiais surge como principal fonte de renda para quem vive nas ruas, sendo mencionada por 37,3% desse grupo. Entre as pessoas acolhidas, essa atividade representa 4,7% das respostas.

Consumo recente de substâncias varia entre pessoas nas ruas e acolhidas

Os dados apontam diferenças expressivas entre os dois grupos quanto ao uso recente de substâncias psicoativas.

Entre as pessoas em situação de rua, 49,7% relataram consumo recente de álcool, 48,2% de crack e 38,3% de maconha.

Já entre os acolhidos, 14,1% informaram consumo recente de álcool, crack ou maconha. Em contrapartida, 71,9% afirmaram não ter utilizado nenhuma substância recentemente, percentual significativamente superior ao registrado entre quem permanece nas ruas, onde 17,6% declararam não fazer uso de substâncias.

Violência atinge parcela significativa dos entrevistados

A pesquisa também revela elevada incidência de diferentes formas de violência entre a população entrevistada.

A violência física foi relatada por 49,4% dos participantes, alcançando 54,4% entre as pessoas em situação de rua e 34,4% entre as acolhidas.

A violência psicológica aparece em seguida, mencionada por 47,1% do total de entrevistados. Entre quem vive nas ruas, o percentual chega a 49,2%, enquanto entre os acolhidos é de 40,6%.

Já a violência institucional foi citada por 21,8% dos participantes, sendo registrada por 22,8% das pessoas em situação de rua e por 18,8% das acolhidas.

Por fim, 9,3% relataram ter sofrido violência sexual, índice que sobe para 10,4% entre as pessoas em situação de rua e corresponde a 6,3% entre aquelas acolhidas.

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