Pesquisa traça perfil de 1.476 pessoas em situação de rua em Campo Grande
Campo Grande tem atualmente 1.476 pessoas em situação de rua, segundo levantamento divulgado pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul. O estudo, apresentado nesta quarta-feira (19), reúne dados obtidos tanto por meio de observação direta nas ruas quanto a partir de registros de serviços e instituições da rede de acolhimento, permitindo traçar um panorama territorial e socioeconômico dessa população na capital.
Do total identificado, 842 pessoas (57%) foram localizadas diretamente em vias públicas, enquanto 634 (43%) constavam em cadastros de equipamentos e serviços especializados de atendimento e acolhimento.
O levantamento mostra ainda que a população em situação de rua é majoritariamente masculina. Dos 1.476 registros, 1.190 correspondem a homens (80,6%), 234 a mulheres (15,9%) e 52 a crianças (3,5%). A predominância de homens permaneceu próxima de 80% tanto entre as pessoas encontradas nas ruas quanto entre aquelas registradas na rede de assistência.
Centro concentra maior número de pessoas em situação de rua
A distribuição territorial revela forte concentração em áreas específicas da cidade. A região central reúne 566 pessoas, o equivalente a 40% dos casos territorializados, configurando-se como o principal ponto de permanência dessa população.
Em seguida aparece a região do Anhanduizinho, com 363 pessoas (25,6%). Juntas, as duas regiões concentram 929 pessoas, representando 65,6% de todos os registros com localização definida.
Questionários detalham características da população
Além do mapeamento territorial, o Grupo de Trabalho Intersetorial da População em Situação de Rua (GT-PSR) entrevistou 257 pessoas, sendo 193 vivendo nas ruas e 64 acolhidas em instituições.
As respostas indicam que o perfil predominante entre as pessoas em situação de rua é formado por homens cis, pardos e com idade média de 39,6 anos. Entre a população acolhida, o levantamento aponta maior presença de mulheres cis e de estrangeiros.
Em relação à identidade de gênero, 76,3% dos entrevistados se identificaram como homens cis. Esse percentual chega a 78,8% entre quem permanece nas ruas e cai para 68,8% entre os acolhidos. Já as mulheres cis representam 21% da amostra, correspondendo a 17,6% das pessoas em situação de rua e 31,3% daquelas acolhidas.
Quanto ao perfil racial, 60,3% dos entrevistados se declararam pardos, percentual semelhante nos dois grupos analisados.
A pesquisa também identificou uma presença significativa de estrangeiros, que representam 17,1% dos entrevistados. Entre as pessoas em situação de rua, eles correspondem a 10,9%, enquanto entre os acolhidos o índice sobe para 35,9%.
Alimentação, trabalho e moradia aparecem entre as principais demandas
As necessidades apontadas variam conforme a condição dos entrevistados. Para quem permanece nas ruas, alimentação foi a demanda mais citada, mencionada por 47,7% dos participantes.
Entre as pessoas acolhidas, as prioridades mudam. Trabalho e geração de renda aparecem como principal necessidade para 73,4%, seguidos por moradia, indicada por 56,3%.
Situação de rua é recorrente para a maioria
O estudo mostra que viver nas ruas não representa um episódio isolado para grande parte da população entrevistada. 64,6% afirmaram já ter passado anteriormente por essa condição, enquanto 34,2% disseram estar enfrentando essa realidade pela primeira vez.
Os dados também evidenciam extremos no tempo de permanência. 37% estão em situação de rua há até seis meses, enquanto 32,3% permanecem nessa condição há mais de seis anos, indicando a coexistência de processos recentes e de situações prolongadas de exclusão social.
Permanência solitária não significa rompimento familiar
A maior parte dos entrevistados (73,9%) declarou permanecer sozinha nas ruas ou nos espaços onde vive atualmente. O índice é de 78,8% entre quem está em situação de rua e de 59,4% entre os acolhidos.
Apesar disso, a pesquisa ressalta que permanecer sozinho não implica necessariamente ausência de vínculos familiares. Segundo o levantamento, 61,9% mantêm contato com familiares, percentual que corresponde a 58% entre as pessoas em situação de rua e a 73,4% entre aquelas acolhidas.
Entre os entrevistados, 45,1% informaram que seus familiares vivem em Campo Grande, enquanto 26,5% têm parentes residentes em outros estados.
No grupo de pessoas acolhidas, 26,6% relataram possuir familiares vivendo no exterior, resultado associado à maior presença de estrangeiros entre os usuários dos serviços de acolhimento.
Uso de substâncias, conflitos familiares e desemprego aparecem como fatores recorrentes
Os entrevistados apontaram diferentes fatores relacionados ao ingresso e à permanência nas ruas. O uso de substâncias foi o aspecto mais frequentemente mencionado, citado por 62,3% como fator associado ao início da situação de rua e por 59,1% como elemento que contribui para sua continuidade.
Também aparecem com destaque os conflitos ou rompimentos familiares, mencionados por 35,4%, e a perda do trabalho ou da renda, indicada por 19,8% dos participantes.
Mercado formal alcança parcela mínima da população
A pesquisa evidencia um cenário de forte exclusão do mercado formal de trabalho. Apenas 2,7% dos entrevistados possuem emprego com vínculo formal.
Entre as pessoas em situação de rua, 45,6% sobrevivem por meio de atividades informais. Já entre os acolhidos, apenas 9,4% exercem trabalho informal, enquanto 73,4% declararam não exercer qualquer atividade laboral.
Nesse contexto, a catação e reciclagem de materiais surge como principal fonte de renda para quem vive nas ruas, sendo mencionada por 37,3% desse grupo. Entre as pessoas acolhidas, essa atividade representa 4,7% das respostas.
Consumo recente de substâncias varia entre pessoas nas ruas e acolhidas
Os dados apontam diferenças expressivas entre os dois grupos quanto ao uso recente de substâncias psicoativas.
Entre as pessoas em situação de rua, 49,7% relataram consumo recente de álcool, 48,2% de crack e 38,3% de maconha.
Já entre os acolhidos, 14,1% informaram consumo recente de álcool, crack ou maconha. Em contrapartida, 71,9% afirmaram não ter utilizado nenhuma substância recentemente, percentual significativamente superior ao registrado entre quem permanece nas ruas, onde 17,6% declararam não fazer uso de substâncias.
Violência atinge parcela significativa dos entrevistados
A pesquisa também revela elevada incidência de diferentes formas de violência entre a população entrevistada.
A violência física foi relatada por 49,4% dos participantes, alcançando 54,4% entre as pessoas em situação de rua e 34,4% entre as acolhidas.
A violência psicológica aparece em seguida, mencionada por 47,1% do total de entrevistados. Entre quem vive nas ruas, o percentual chega a 49,2%, enquanto entre os acolhidos é de 40,6%.
Já a violência institucional foi citada por 21,8% dos participantes, sendo registrada por 22,8% das pessoas em situação de rua e por 18,8% das acolhidas.
Por fim, 9,3% relataram ter sofrido violência sexual, índice que sobe para 10,4% entre as pessoas em situação de rua e corresponde a 6,3% entre aquelas acolhidas.
Notícias Destaque
Assine nossa newsletter
Fique por dentro das últimas notícias, só preencher abaixo.

