Saúde de Campo Grande enfrenta bloqueios judiciais, déficit estrutural e pressão por cirurgias
- A prestação de contas da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) referente ao primeiro quadrimestre de 2026 ocorreu em tom protocolar e marcado pela apresentação sucessiva de dados técnicos. Durante a audiência pública realizada na segunda-feira (25), o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, limitou-se, na maior parte do tempo, à exposição objetiva de números e indicadores, com poucas intervenções fora do roteiro formal.
Um dos raros momentos de espontaneidade ocorreu ao abordar o avanço da judicialização na saúde pública municipal — fenômeno que, segundo o secretário, tem impactado diretamente a capacidade financeira da pasta.
“É um negócio que nos pega”, afirmou Vilela ao detalhar que a Prefeitura de Campo Grande teve R$ 12,92 milhões bloqueados judicialmente entre janeiro e abril deste ano. Os recursos foram sequestrados para garantir atendimento a pacientes que recorreram à Justiça em busca de cirurgias, medicamentos, insumos e serviços médicos não ofertados de forma regular pela rede pública.
Os dados apresentados mostram que 60,6% dos bloqueios judiciais estão relacionados à realização de cirurgias. Outros 21,2% correspondem a demandas por home care. O restante envolve diferentes tipos de procedimentos, tratamentos e fornecimento de insumos.
O impacto financeiro ocorre em um cenário de forte pressão orçamentária. A Sesau estima arrecadar, ao longo de 2026, R$ 3,722 bilhões em receitas vinculadas à saúde pública. Desse total, R$ 879,985 milhões já foram empenhados, ou seja, comprometidos com despesas da administração municipal. O financiamento da saúde em Campo Grande segue o modelo tripartite, sustentado por repasses federais, estaduais e municipais.
Apesar do volume expressivo de recursos previstos, a gestão reconhece dificuldades para atender demandas consideradas básicas da rede pública. Segundo Marcelo Vilela, um dos principais gargalos enfrentados atualmente é a aquisição de insumos hospitalares. O secretário também admitiu limitações financeiras para recuperar a infraestrutura das unidades de saúde da Capital.
“As estruturas estão sucateadas, mas a gente não tem orçamento para a recuperação da totalidade”, declarou aos vereadores presentes na audiência.
A situação do abastecimento de medicamentos, embora descrita pela administração como menos crítica do que em meses anteriores, ainda apresenta problemas persistentes, sobretudo na distribuição de remédios psiquiátricos.
A audiência, entretanto, deixou de abordar temas considerados centrais para o debate sobre a situação financeira da saúde municipal. Não houve menção à denúncia do Conselho Municipal de Saúde sobre o suposto desvio de R$ 156 milhões do Fundo Municipal de Saúde. Também ficaram fora da prestação de contas os apontamentos do Ministério Público Estadual de que a gestão da prefeita Adriane Lopes (PP) acumula uma dívida de R$ 197,6 milhões com fornecedores de medicamentos, materiais hospitalares e insumos da rede pública.
O encontro ocorreu poucos dias após a prefeitura anunciar o programa “Vira CG Saúde”, iniciativa apresentada pela prefeita Adriane Lopes e pelo secretário Marcelo Vilela como uma tentativa de acelerar a fila de procedimentos especializados no município.
O programa prevê investimento de R$ 60 milhões em recursos federais para viabilizar 24 mil procedimentos entre cirurgias, exames e diagnósticos especializados.
Segundo a administração municipal, já foram pactuados 8.460 procedimentos cirúrgicos e outros 16.855 exames especializados.
Entre as cirurgias previstas estão procedimentos ortopédicos, oftalmológicos, bariátricos, urológicos, cirurgias gerais, operações de coluna, cirurgias pediátricas, de cabeça e pescoço, oncologia ortopédica, procedimentos vasculares e otorrinolaringológicos. O pacote também contempla laqueaduras, mamoplastias e cirurgias voltadas ao tratamento de endometriose profunda.
Na área de exames e diagnósticos especializados, a prefeitura informou que o programa inclui ressonâncias magnéticas, tomografias, colonoscopias, endoscopias, radiografias, espirometrias, biópsias de próstata, eletroencefalogramas com mapeamento cerebral e avaliações neuropsicológicas.
Durante a prestação de contas, Marcelo Vilela afirmou que houve melhora nos serviços prestados pela rede municipal e atribuiu parte desse avanço à renegociação de contratos e ao fortalecimento das parcerias hospitalares.
“Ocorreu melhora nos serviços. Nossas pactuações estão sendo realizadas e estamos atendendo com a equipe técnica e fazendo saúde pública. Melhoramos a contratualização dos hospitais que nos apoiam, como Santa Casa, Pênfigo e São Julião. O grande desafio é o subfinanciamento. Mesmo com o orçamento, não conseguimos suprir todas as necessidades da secretaria”, declarou o secretário.
A prestação de contas expôs uma gestão pressionada simultaneamente por demandas judiciais crescentes, dificuldades estruturais da rede pública, déficits no abastecimento e limitações orçamentárias, ao mesmo tempo em que tenta sustentar a promessa de ampliar o acesso a procedimentos especializados na Capital.
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