Antiga rodoviária de Campo Grande ainda é foco de insegurança
Mesmo com a redução dos indicadores oficiais de criminalidade e a adoção de ações policiais e sociais, moradores e comerciantes do entorno da antiga rodoviária de Campo Grande afirmam que a sensação de insegurança continua fazendo parte da rotina. É o que mostra reportagem do G1MS e da TV Morena.
O cenário, segundo relatos, é marcado por furtos, roubos, tráfico de drogas, invasões de imóveis, presença de usuários de entorpecentes e de pessoas em situação de rua, fatores que, na avaliação da comunidade, transformaram profundamente a dinâmica da região.
A percepção de insegurança também alterou hábitos cotidianos. A diarista Odila de Almeida afirma que deixou de aceitar serviços na região por receio da violência.
“Essa região é muito perigosa […] Parei de fazer, porque aqui não dá pra passar 6h30.”
Os moradores relatam que imóveis desocupados, calçadas frequentemente ocupadas e a recorrência de crimes patrimoniais modificaram o ambiente urbano ao longo dos últimos anos. O aposentado João Tomicha afirma que episódios de violência são frequentes e teme ser atingido durante confrontos.
“Tem que tomar muito cuidado.”
Entre os moradores antigos está o guia de turismo Carlos Iracy Coelho Netto, que vive no bairro há mais de quatro décadas. Segundo ele, o cenário atual contrasta com a realidade encontrada quando se mudou para a região. Na época, recorda, os filhos brincavam livremente pelas ruas enquanto ele e a esposa permaneciam sentados na calçada, sem preocupação com a segurança.
“Quando eu cheguei aqui eu tinha uma filha com 5 anos e outro com 2 anos. Então muitas vezes eu e minha esposa sentávamos na calçada para o menino andar de bicicleta e ele ia de esquina em esquina, depois pedia para dar a volta no quarteirão, não tinha perigo.”
Na avaliação de Carlos, o processo de deterioração começou após a desativação da antiga rodoviária, quando o fluxo de pessoas diminuiu e o prédio passou a enfrentar um período prolongado de abandono.
“Foi caindo o movimento. Não tinha quase nada ali na antiga rodoviária. O abandono traz o morador em situação de rua, as coisas vão ficando complicada.”
Como consequência, a família passou a investir continuamente em proteção patrimonial para permanecer no imóvel. Nos últimos 15 anos, foram instalados muros mais altos, grades, cerca elétrica, câmeras de monitoramento, sistema de alarme e vigilância permanente.
A antiga rodoviária permanece em obras há quatro anos. Para moradores e comerciantes, a demora na revitalização contribuiu para agravar a sensação de abandono e, consequentemente, os problemas relacionados à segurança pública.
Um dos episódios mais recentes ocorreu no início de junho de 2026, quando uma briga nas proximidades deixou cinco pessoas feridas, três delas em estado grave. De acordo com a polícia, as vítimas foram agredidas com pedaços de madeira e pedras após tentarem recuperar celulares que haviam sido roubados.
Segundo relatos da população local, furtos, invasões de imóveis e o comércio de drogas continuam sendo ocorrências frequentes nas imediações da antiga rodoviária.
Nos últimos anos, diferentes órgãos públicos adotaram medidas para enfrentar os problemas da região. Em setembro de 2023, a Guarda Civil Metropolitana instalou uma base móvel com monitoramento 24 horas nas proximidades da antiga rodoviária. A estrutura funcionou durante determinado período, mas posteriormente foi desativada.
Além das iniciativas voltadas à segurança pública, foram implementadas ações direcionadas à população em situação de rua. A Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul promoveu atendimentos jurídicos, enquanto equipes da assistência social realizam abordagens, oferecem acolhimento e encaminham interessados para serviços públicos e oportunidades de trabalho.
A Secretaria Municipal de Assistência Social informa que o acolhimento é facultativo, conforme estabelece a legislação, cabendo à pessoa abordada decidir se aceita ou não o encaminhamento.
Embora a percepção dos moradores seja de agravamento da insegurança, os dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram redução dos principais indicadores criminais na região central de Campo Grande entre janeiro e março, na comparação dos anos de 2023 e 2026. Os roubos em via pública caíram 65,48%; os roubos de veículos, 55,56%; os furtos, 22,48%; e os homicídios dolosos registraram redução de 75%.
Apesar desses resultados, quem vive ou trabalha no entorno da antiga rodoviária afirma que os números ainda não se refletem na percepção cotidiana de segurança.
Em nota, a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) informou que mantém patrulhamento preventivo diário na região por meio de equipes do 1º Batalhão de Polícia Militar e de unidades especializadas. Segundo a corporação, o planejamento operacional é definido com base nos registros de ocorrências e pode ser reforçado conforme a necessidade identificada.
A PM também orienta que vítimas de crimes registrem boletins de ocorrência, destacando que as informações auxiliam na definição das estratégias de policiamento. Denúncias podem ser feitas pelos telefones 190 e 181.
A Guarda Civil Metropolitana informou que não concederia entrevista sobre o tema.
Já a Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos esclareceu que o atendimento direto à população em situação de rua é atribuição do município. Conforme a pasta, o Governo do Estado participa da política pública por meio de repasses financeiros, suporte técnico e articulação entre os diferentes órgãos envolvidos no atendimento social.
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