Delação de R$ 300 bilhões do ‘rei dos fundos’ ameaça expor teia de laranjas e negócios ilícitos em MS

15 de setembro de 2026
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A negociação adiantada do acordo de colaboração premiada de João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag Investimentos, pode revelar teia de laranjas que contava com empresários e produtores rurais em Mato Grosso do Sul.

No início do mês, Mansur foi ouvido por um juiz auxiliar do gabinete do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça. Esse é o último passo antes de o pedido de colaboração, já firmado com a PGR (Procuradoria-Geral da República), ser homologado. É a 1ª delação firmada pela Procuradoria na Operação Compliance Zero.

A Reag, que chegou a administrar R$ 300 bilhões em ativos, funcionou como a principal engrenagem financeira para fraudes do Banco Master, de Daniel Vorcaro — que está preso desde março —, e também em esquemas de lavagem de dinheiro investigados na Operação Carbono Oculto — ambos com implicações diretas no Estado.

‘Recrutador’ da Reag para esquema do Banco Master em MS

Empréstimos suspeitos feitos por empresários e produtores de MS com o Master entram na mira da PF. (Divulgação, Master)

Conforme apurado pela reportagem, uma das supostas ‘vítimas’ do esquema em MS teria tomado um empréstimo no valor de R$ 400 milhões. O dinheiro de fato entrou numa conta bancária, mas para o empresário ‘sobrou’ cerca de R$ 10 milhões na conta.

O restante do dinheiro era ‘reinvestido’ em fundos administrados pela gestora Reag e, segundo as investigações, esses recursos eram usados para bancar créditos podres e inflar ativos financeiros.

Em outro caso, produtor rural obteve empréstimo de R$ 40 milhões. Mas, na verdade, a ‘parte’ dele era R$ 2 milhões, que foi o valor indicado como parte de uma propriedade que deixou como garantia.

Empréstimo de R$ 600 milhões em MS foi parar na Justiça

Um dos casos mostrados pela reportagem mostrou a situação de um empresário do setor frigorífico de Mato Grosso do Sul, que move ação contra o BRB (Banco de ) por estar sendo cobrado por uma dívida de R$ 600 milhões, referente a um empréstimo feito por intermédio da Reag.

Para adquirir novas plantas frigoríficas, o empresário tomou o empréstimo. A operação foi estruturada de forma a contar com garantia fiduciária lastreada em cotas do fundo de investimento Titânia, administrado pela Reag.

No entanto, o empresário alegou que enfrentou empecilhos para conseguir aprovação do conselho do fundo para comprar plantas frigoríficas. “Sempre apontavam algum problema e não aprovavam a compra”, disse, afirmando que, durante esse tempo, o dinheiro ficou sob os domínios do fundo da Reag.

A expectativa é de que a delação de Mansur detalhe se os fundos administrados pela Reag desenharam propositalmente as cláusulas contratuais e as trocas de títulos que sufocaram os grupos produtivos locais.

O corredor de R$ 3 bilhões do crime organizado em MS

Mohamad ‘Primo’ é alvo de nova denúncia do MPSP por esquema bilionário que usou distribuidoras em MS. (Montagem: Divulgação, PF/Reprodução)

As apurações policiais revelam que a malha de fundos estruturada pela Reag serviu de blindagem para lavar recursos do crime organizado, utilizando MS como corredor estratégico. Investigações apontam que chefias ligadas à facção criminosa PCC usaram empresas de fachada e distribuidoras de combustíveis no Estado para movimentar e ocultar mais de R$ 3 bilhões somente em Mato Grosso do Sul.

A engenharia financeira da gestora permitia transformar dinheiro vivo oriundo do tráfico em cotas de fundos imobiliários e de investimentos em participações, escondendo os reais beneficiários sob camadas de papéis e CNPJs mantidos em sigilo.

Tudo está sendo apurado na Operação Carbono Oculto, da PF, que recentemente apresentou mais uma denúncia contra o empresário Mohamad Hussein Mourad, conhecido como ‘Primo’, e seu parceiro de negócios Roberto Augusto Lemes da Silva, o ‘Beto Louco’.

Conforme as investigações, Moahamad ‘Primo’ operava distribuidoras de combustíveis em Mato Grosso do Sul para blindar e diluir o patrimônio da facção. Os dois continuam foragidos da Justiça.

A defesa de Mohamad ‘Primo’, representada pelo advogado Conrado de Almeida Prado enviou nota: “A denúncia repete todo o estratagema que a Operação Carbono Oculto vem desenvolvendo desde que foi deflagrada, uma estratégia especulação sobre fatos não provados e tirados de contexto. Uma acusação de 300 páginas, mas a partir da qual é impossível sequer apontar qual é o crime que teria sido antecedente da suposta lavagem de dinheiro. Ora a denúncia fala de contexto, ora fala de outros processos em curso, de operações investigatórias que vieram antes, para no fim repetir aquela narrativa especulativa: de que há um grande processo de lavagem sem explicar que dinheiro sujo está sendo lavado, onde existe crime e qual a relação dos acusados com as diversas situações que a denúncia apresenta sem qualquer contexto ou concatenação“.

Já a defesa de Roberto Augusto Lemes da Silva, representada pelo advogado Celso Vilardi, se manifestou: “A defesa provará, no curso do processo, a improcedência da denúncia ofertada, demonstrando, outrossim, a nulidade do feito que tramita em Juízo Estadual, o que à toda evidência contraria os termos legais”.

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