Exclusivo: ex-funcionário revela como empreiteira disfarçou desvios no tapa-buracos
O serviço de tapa-buracos em Campo Grande é um foco de corrupção. Na última semana, servidores da Prefeitura e do Governo do Estado, além de empreiteiros, foram para a cadeia na operação ‘Buraco sem Fim’. Mas, segundo quem conhece os contratos, as investigações não chegaram nem à ponta do iceberg.
A reportagem do Jornal Midiamax conversou com um ex-funcionário que atua em empresas de obras em Campo Grande. Ele já trabalhou na Rial Construtora Ltda. (CNPJ 05.864.917/0001-58), alvo da operação e revela, com exclusividade, uma das táticas para disfarçar o roubo de dinheiro público dos contratos de tapa-buracos.
O escracho é tanto que não existe nenhum rebuscamento na jogada. Segundo o profissional, a empreiteira supostamente superfaturou notas fiscais para receber por quantidade de massa asfáltica que nunca forneceu.
Assim, segundo ele, caminhões saem de um dos locais onde funciona a Rial com notas informando peso superior ao real para superfaturar o valor recebido. “Os caminhões, todos os dias, saem com três a cinco toneladas a mais”, explica.
‘Fácil de ver’: rastros da corrupção no tapa-buracos
Segundo o ex-funcionário, o esquema é fácil de pegar. A Rial, por exemplo, supostamente disponibilizava quantidade de massa asfáltica menor do que estava ‘oficialmente’ na nota fiscal. Conforme o Portal da Transparência do município, são oito contratos ativos para obras e serviços, sendo o mais antigo firmado em 2022.
“É um excesso de carga que não existe. É fácil de ver. É só pegar um caminhão deles e levar a uma balança. Aí o peso que vai estar na balança é o peso normal que o caminhão aguenta, que o caminhão leva. E aí na nota [fiscal] vai estar sempre a mais”, explica.
O Jornal Midiamax procurou a empresa, em sua sede no bairro Jardim Noroeste, mas ninguém quis falar a respeito da denúncia. O espaço segue aberto para manifestação.
O profissional que trabalha no setor de obras não confirma se a prática é comum em todas as empreiteiras que atuam no tapa-buracos em Campo Grande.
Tapa-buracos fantasma e TACs
Em 2015, leitores do Midiamax se uniram à reportagem e passaram a documentar flagrantes do chamado ‘tapa-buracos fantasma’: equipes das empreiteiras fingiam cobrir buracos que não existiam, já que ficaram um tempo expostas para mentir nas notas fiscais, como aparentemente voltaram a fazer.
As denúncias já renderam operações policiais conduzidas pela Polícia Federal, como a Lama Asfáltica, e promotores do MPMS seguem brigando pela condenação de alguns dos implicados. Houve condenações, absolvições, bloqueios de bens, desbloqueios e multas para empresas.
Alguns dos desdobramentos judiciais se arrastam até hoje. Outros foram sufocados antes mesmo de nascer.
Em 2019, em vez de seguir com as investigações, o MPMS mediou um convênio entre a Prefeitura de Campo Grande, a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e a Fapec (Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura) para ‘evitar o gasto do dinheiro público com o excesso de obras de reparação do asfalto’.
O TAC rendeu até um ‘Manual de Manutenção de Pavimentos’, com dicas para a Prefeitura cuidar do pavimento e evitar a manutenção corretiva, que os campo-grandenses se acostumaram a chamar de ‘tapa-buracos’.
Mesmo assim, em Campo Grande, TACs (Termos de Ajustamento de Conduta), inspeções e notas oficiais dos vereadores e dos órgãos de controle aparentemente não dão conta de frear os desvios.
Enquanto isso, os moradores sofrem com as vias da cidade tomadas por buracos ou por remendos malfeitos que prejudicam o trânsito e causam prejuízos e acidentes com mortes.
‘Buraco sem Fim’: mais do mesmo?
A Operação Buraco sem Fim prendeu sete pessoas, entre elas, o engenheiro sócio da Rial, Antonio Bittencourt Jacques Pedrosa, e seu pai, Antonio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa. Também foram presos o ex-secretário de Obras Rudi Fiorese; o chefe do serviço de tapa-buracos, Edivaldo Aquino Pereira; o engenheiro da Sisep Mehdi Talayeh; Fernando de Souza Oliveira; e o ex-servidor Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula.
Cinco dos contratos de serviço abrangem o tapa-buracos, bem como a manutenção em ruas de terra e também a sinalização por meio de construção de lombadas. O valor total para esses serviços é de R$ 42.050.710,63.
O maior montante refere-se a contratos de obras de recapeamento. A Rial opera, atualmente, em três frentes: região do Anhanduizinho (R$ 52.157.356,45), Imbirussu (R$ 29.783.245,48) e Segredo (R$ 23.630.404,98).

Somente em 2026, são R$ 19,8 milhões em três contratos que fazem parte de uma ampla frente de obras da Prefeitura para recapeamento de vias. Todos firmados via licitação.
O Gecoc afirma que o problema está na execução do contrato. Ou seja, a empreiteira é acusada de não executar o serviço devidamente. Para tudo parecer correto, a Rial contava com participação de servidores da Sisep, que foram exonerados pela prefeita Adriane Lopes (PP) após tudo vir à tona.
Prefeitura pode tomar providências
A atuação da empreiteira, segundo os investigadores, segue o mesmo modus operandi do que foi apurado na Operação Cascalhos de Areia, em que cinco dos atuais investigados foram denunciados.
A Prefeitura de Campo Grande informou, em nota, que pediu acesso às denúncias envolvendo a Construtora Rial — que tem contratos ativos para tapa-buracos e foi alvo da Operação Buraco sem Fim.
Conforme o Executivo Municipal, a PGM (Procuradoria-Geral do Município) pediu acesso ao conteúdo do processo, que corre em segredo de Justiça, para entender a denúncia e embasar as eventuais providências a serem tomadas. A investigação aponta que o esquema teria fraudado R$ 113 milhões em contrato entre 2018 e 2025
Operação Buraco sem Fim
Em 12 de maio de 2026, o MPMS deflagrou a Operação Buraco sem Fim, cumprindo sete mandados de prisão e dez de busca e apreensão em Campo Grande, contra um esquema de fraude no serviço de tapa-buracos.
A investigação constatou a existência de uma organização criminosa que atua fraudando, sistematicamente, a execução do serviço de manutenção de vias públicas, por meio da manipulação de medições e da realização de pagamentos indevidos.
Os promotores descobriram pagamentos públicos que não correspondem aos serviços efetivamente prestados, com o propósito de permitir o desvio de dinheiro público, o enriquecimento ilícito dos investigados e, como consequência, a má qualidade das vias públicas municipais.
Levantamento indica que, entre 2018 e 2025, a empresa investigada amealhou contratos e aditivos no valor de R$ 113.702.491,02.
Durante o cumprimento das ordens judiciais, foram encontrados valores altos em dinheiro vivo, totalizando pelo menos R$ 429 mil. Só no endereço do ex-secretário municipal de Obras Rudi Fiorese, havia R$ 186 mil em espécie. No imóvel de outro alvo, havia R$ 233 mil, também em notas de real.
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