Justiça barra tarifa técnica de R$ 7,79 para o Consórcio Guaicurus
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) reformou a decisão que obrigava a Prefeitura de Campo Grande a elevar a tarifa técnica do transporte coletivo para R$ 7,79, valor reivindicado pelo Consórcio Guaicurus. Em julgamento da 2ª Câmara Cível, os desembargadores entenderam que o município não está obrigado a aplicar o reajuste pretendido pelas empresas concessionárias.
Com a decisão, permanece em vigor a tarifa técnica de R$ 6,57. Já a tarifa pública continua fixada em R$ 4,95, sendo a diferença custeada pelo município por meio de subsídio.
Além de afastar a obrigatoriedade do reajuste, o TJMS revogou a multa diária de R$ 80 mil que havia sido imposta ao município pelo descumprimento da decisão de primeira instância e desobrigou a Prefeitura do pagamento de R$ 20 mil em honorários advocatícios.
Intervenção no transporte mudou o contexto da ação
Segundo a Procuradoria-Geral do Município (PGM), um dos fatores considerados no julgamento foi a perda do objeto da ação, decorrente da intervenção decretada pela prefeita Adriane Lopes (PP) no sistema de transporte coletivo.
A medida, anunciada em junho, retirou temporariamente dos empresários a administração do serviço por um período inicial de seis meses, transferindo a gestão para interventores nomeados pelo Executivo municipal.
Antes da decisão do Tribunal, a Justiça de primeira instância havia acolhido o pedido do Consórcio Guaicurus e determinado que a Prefeitura aplicasse a tarifa técnica de R$ 7,79, sob pena de multa diária. O município, no entanto, recorreu ao TJMS, que reformou integralmente esse entendimento.
Ministério Público apontou risco de enriquecimento sem causa
Durante a tramitação do recurso, o procurador de Justiça Aroldo José de Lima manifestou-se contra o reajuste solicitado pelas empresas de ônibus. Em parecer anexado ao processo, ele sustentou que a atualização da tarifa poderia resultar em “enriquecimento sem causa” da concessionária.
O representante do Ministério Público ressaltou que, apenas em 2026, o Consórcio Guaicurus recebeu mais de R$ 38,5 milhões em recursos públicos municipais. Desse total, R$ 28 milhões correspondem à subvenção econômica destinada ao sistema, enquanto outros R$ 10,5 milhões decorrem de isenção do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN).
O parecer também menciona que uma perícia produzida em outro processo judicial apresentou conclusões divergentes da situação financeira alegada pela concessionária. Para o procurador, não seria razoável impor ao município uma obrigação tarifária baseada em premissas econômicas posteriormente colocadas em dúvida por prova técnica produzida no Judiciário.
A Prefeitura estima que a adoção da tarifa técnica de R$ 7,79 provocaria um impacto de aproximadamente R$ 45 milhões por ano nas contas públicas.
Consórcio afirma que tarifa prevista em contrato nunca foi aplicada
Em nota oficial, o Consórcio Guaicurus afirmou que a ação judicial busca apenas o cumprimento de uma decisão proferida em 2023, que determinou a atualização da tarifa técnica para preservar o equilíbrio econômico-financeiro da concessão.
Segundo a empresa, o modelo atualmente vigente foi criado pelo Termo Aditivo nº 4, elaborado pela própria Prefeitura e pelas agências reguladoras, estabelecendo duas modalidades de cobrança: a tarifa pública, paga pelos usuários, e a tarifa técnica, calculada com base na relação entre passageiros pagantes e quilômetros percorridos.
O Consórcio sustenta que a administração municipal jamais aplicou corretamente a fórmula prevista no contrato e argumenta que a intervenção decretada pela Prefeitura não elimina a necessidade de recomposição da tarifa técnica.
Na avaliação da concessionária, a manutenção da defasagem compromete o equilíbrio financeiro do sistema, reduz a capacidade de investimentos, dificulta a renovação da frota e prejudica o atendimento de outras obrigações contratuais.
A empresa também criticou o argumento utilizado pelo município para extinguir a ação judicial, afirmando que utilizar a própria intervenção como fato superveniente acelera “de forma irresponsável” a deterioração do sistema de transporte coletivo. Ao final da manifestação, o Consórcio declarou permanecer à disposição das autoridades e afirmou buscar uma solução definitiva para o transporte público de Campo Grande.
Intervenção investiga fraudes, desvio de recursos e irregularidades contábeis
A intervenção municipal foi oficializada em 16 de junho por decreto da prefeita Adriane Lopes, publicado no Diário Oficial. A medida teve como fundamento um relatório que apontou diversas falhas na prestação do serviço pela concessionária.
Desde então, a administração do transporte coletivo passou a ser exercida por uma equipe de interventores liderada pelo advogado Alexandro de Oliveira.
Entre as atribuições da comissão está a realização de uma auditoria nas contas do Consórcio Guaicurus. As apurações abrangem suspeitas de fraude fiscal envolvendo a venda da principal garagem da empresa, possível desvio de R$ 32 milhões, além de omissões contábeis que, segundo as investigações, se estenderiam desde 2012.
No processo judicial relacionado à intervenção, o autor da ação popular, Luso Gabriel de Souza Queiroz Batista, acusa os proprietários do Consórcio de promoverem transferências financeiras atípicas e ilegais para empresas privadas ligadas à família Constantino. Segundo a ação, as operações teriam resultado no desvio de mais de R$ 46 milhões.
Em outra frente judicial, a Prefeitura também sustenta que os empresários deixaram de reinvestir R$ 9,9 milhões obtidos com a venda da garagem na melhoria do sistema de transporte coletivo, contrariando obrigações relacionadas à prestação do serviço.
Número de passageiros despenca enquanto frota e linhas encolhem
O julgamento ocorre em meio ao agravamento dos indicadores operacionais do transporte coletivo em Campo Grande. Dados oficiais mostram que, em uma década, o sistema perdeu praticamente metade dos passageiros transportados diariamente.
Em 2016, o Consórcio Guaicurus registrava média de 201.243 usuários por dia. Em 2025, esse volume caiu para 102.540 passageiros, o menor patamar desde a pandemia, superando apenas os números registrados em 2020.
A retração também foi significativa em relação ao ano anterior. Em 2024, o sistema ainda transportava, em média, 152.977 passageiros por dia, o que representa uma redução de aproximadamente um terço em apenas doze meses.
Paralelamente à queda da demanda, houve redução da estrutura operacional. A frota disponível passou de 587 ônibus em 2016 para 460 veículos desde 2024, uma diminuição de 22%.
A redução atingiu principalmente os veículos de maior capacidade. A quantidade de micro-ônibus executivos equipados com ar-condicionado caiu de 23 para apenas dois veículos desde 2022. Já os ônibus articulados foram reduzidos de 38 para 13 unidades, retração de 66%.
A única categoria que apresentou crescimento foi a de ônibus classificados como “básico médio”, cuja frota aumentou de 82 para 147 veículos no período, alta de 79%.
Também houve diminuição da oferta de linhas. O sistema operava 195 itinerários em 2016 e passou a disponibilizar 166 em 2025, redução de 15%. Apenas entre 2024 e 2025, a queda foi de 2,3%, consolidando o quinto ano consecutivo de redução na oferta de linhas à população.
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