Brasileiro que recebeu comitiva de MS na Coreia diz que país fez da educação «a prioridade máxima da nação»
A Coreia do Sul saiu da guerra sem recursos naturais abundantes e apostou tudo nas pessoas. É assim que o cearense Soleiman Dias, diretor de Ex-Alunos e Relações Internacionais da Chadwick International, resume o salto educacional do país onde vive há mais de 25 anos. Em respostas enviadas por escrito à Hora MS, ele diz que o país compreendeu que “o seu maior capital era o capital humano” e defende que o Brasil adapte, e não copie, esse modelo.
Soleiman recebeu nesta semana, em Songdo, os dirigentes da Fiems, do Sebrae/MS e da Fecomércio-MS que participam da missão empresarial de Mato Grosso do Sul à Ásia. Ele também é fundador e presidente da Associação Brasil-Coreia.
O segredo coreano
Para ele, o chamado “Milagre do Rio Han”, nome dado ao rápido crescimento econômico do país, caminhou junto com a escola. “O grande segredo do chamado ‘Milagre do Rio Han’ (ou célere crescimento econômico) e do salto educacional coreano foi transformar a educação na prioridade máxima da nação, tanto no setor público quanto na estrutura familiar”, afirma.
Esse esforço, segundo Soleiman, foi coletivo, “entre Governo, famílias e professores para garantir instrução rigorosa, mérito e valorização social contínua do conhecimento”. Ele descreve família, professor e cultura do esforço como “uma tríade indissociável”. O professor, diz, é “uma figura altamente respeitada na sociedade coreana, vista como um mentor moral e intelectual”. E completa: “Na Coreia, acredita-se que o sucesso não vem do talento inato, mas do empenho e da dedicação contínuos.”
Os números confirmam o desempenho. No Pisa 2022, avaliação internacional da OCDE, os estudantes coreanos fizeram 527 pontos em matemática, contra 472 da média da OCDE e 379 do Brasil.
A pressão sobre os jovens
O próprio Soleiman reconhece o custo desse modelo. “O modelo tradicional gerou altos índices de estresse e ansiedade devido à extrema competitividade por vagas nas melhores universidades”, diz. Segundo ele, o governo coreano “tem implementado reformas para diminuir a dependência dos cursos preparatórios privados, flexibilizar processos seletivos e promover atividades extracurriculares”.
A escola
A Chadwick International foi fundada em 2010 na Zona Econômica Livre de Incheon, segue o currículo do Bacharelado Internacional (IB) e tem 1.468 alunos de 66 nacionalidades. Soleiman trabalha lá desde 2009, primeiro como diretor de Admissões.
“A Chadwick International tenta oferecer o melhor de dois mundos: une o rigor e o respeito à aprendizagem da tradição coreana à flexibilidade, pensamento crítico e mentalidade global de um currículo internacional”, explica. Em vez da memorização voltada ao vestibular, a escola aposta, nas palavras dele, em “investigação, a pesquisa, o desenvolvimento socioemocional, o serviço comunitário e o aprendizado prático através da experiência”. Na Chadwick, afirma, a prioridade é “o bem-estar mental, aprendizado sócio emocional, programas de artes, esportes e orientação educacional individualizada”.

O que mostrou a MS
Natural de Fortaleza, formado pela Unifor e com mestrado em Educação Internacional nos Estados Unidos e doutorado pela Hanyang University, Soleiman recebeu em 2022 a Ordem de Rio Branco, do governo brasileiro, pela contribuição às relações entre os dois países. Ele conta ainda que fundou o Conselho de Cidadãos Honorários de Seul, depois de receber a cidadania honorária da capital coreana.
À comitiva sul-mato-grossense, diz, quis “demonstrar como a educação pode ser o motor definitivo de transformação econômica e social de um país”. Ele apresentou “como a infraestrutura escolar, a mentalidade comunitária, a formação contínua de professores associada a uma boa remuneração podem ser integradas para elevar o padrão educacional do estado brasileiro”.
Adaptar, não copiar
“Nada se pode copiar, mas há muito o que daria para adaptar”, resume. Entre o que serve ao Brasil, cita “a valorização social e salarial do professor”, o envolvimento da família no acompanhamento escolar e “a aplicação de tecnologia e inovação pedagógica nas redes públicas”.
O que não deve vir junto, segundo ele: “A cultura de hipercompetitividade e a carga horária excessiva de estudos informais (cursinhos) até altas horas da noite”. “A realidade brasileira se beneficia muito da sociabilidade, da criatividade e da empatia, que precisam ser preservadas”, afirma.
Parcerias com MS
Como presidente da Associação Brasil-Coreia, Soleiman vê “um campo enorme para programas de intercâmbio de professores e gestores”, com foco em ensino de exatas (STEM) e tecnologia. Ele sugere parcerias de escolas-irmãs, “conectando estudantes de Mato Grosso do Sul e da Coreia em projetos virtuais colaborativos sobre sustentabilidade, meio ambiente e cidadania global”, além de bolsas e intercâmbio em áreas “como o agronegócio sustentável, biotecnologia e inovação”.
Conselho aos educadores
Aos professores e gestores brasileiros, o recado é de paciência. “A transformação educacional não acontece do dia para a noite nem por fórmulas mágicas, mas sim através de políticas de estado duradouras, valorização docente, incluindo a sua remuneração, e escuta ativa das necessidades dos alunos”, diz.
Ele também defende a escola no centro do bairro: “Na Coreia, a escola não funciona isolada; ela é o centro da comunidade.” Aos gestores, aconselha “criarem canais reais de participação para as famílias, transformando os pais em parceiros do aprendizado e não apenas em cobradores”.
Leia também:
- Comitiva de MS conhece na Coreia do Sul escola que virou referência em ensino internacional
- Em Seul, missão da Fiems conhece como educação e indústria transformaram a Coreia do Sul
Fontes
- Respostas por escrito de Soleiman Dias à Hora MS (recebidas em 22/10/2026; `pauta/inbox/2026-10-22-soleiman-respostas/`)
- Korea Times — «Soleiman Dias receives Brazilian presidential medal» (25/04/2022)
- CASE — Soleiman Dias, Director of Alumni and International Relations, Chadwick International (2024)
- Unifor — «Entrevista Nota 10: Soleiman Dias e a educação no crescimento da Coreia do Sul»
- Chadwick International — About
- OCDE — PISA 2022, nota da Coreia
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